BC asfixia os mais pobres
A insistência do Copom (Comitê de Política Monetária), do Banco Central, em manter a Selic nas alturas provoca consequências diretas e duras para a maioria dos brasileiros, sobretudo os mais pobres. Com o novo aumento, a taxa básica de juros alcança 14,25% ao ano e reafirma o Brasil como um dos países de maior custo de vida e com o ambiente mais hostil para o investimento produtivo.
Por Rose Lima
A insistência do Copom (Comitê de Política Monetária), do Banco Central, em manter a Selic nas alturas provoca consequências diretas e duras para a maioria dos brasileiros, sobretudo os mais pobres. Com o novo aumento, a taxa básica de juros alcança 14,25% ao ano e reafirma o Brasil como um dos países de maior custo de vida e com o ambiente mais hostil para o investimento produtivo.
Os efeitos são sentidos diariamente pela população. A Selic alta contribui para o aumento do desemprego, encarece os produtos, reduz o poder de compra e torna a vida mais difícil — um prato cheio para os discursos da extrema direita.
Enquanto a maioria sofre, uma pequena parcela comemora. São os brasileiros do topo da pirâmide social, donos de grandes investimentos em fundos, títulos bancários e títulos da dívida pública — aplicações que têm os rendimentos diretamente impulsionados pela Selic. Ou seja, quanto maior a taxa, maior o lucro para quem já tem muito.
Segundo a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais), menos de 10% da população possui investimentos desse tipo. Por outro lado, 61% dos brasileiros sequer têm valor investido. Para esses, o aumento representa apenas mais dificuldades.
Justificativa é falácia
A última queda na Selic ocorreu em maio de 2024, e mesmo assim já estava em patamar elevado, de 10,50%. A partir de novembro, o BC voltou a elevar o índice. O resultado é um Brasil com uma das maiores taxas de juros reais do planeta, o que compromete o crescimento econômico, encarece o crédito, inviabiliza investimentos e aumenta os gastos públicos com o pagamento de juros da dívida, desviando recursos que deveriam ser investidos em saúde, educação e infraestrutura.
A justificativa é sempre a mesma: conter a inflação, pressionada principalmente pelo preço dos alimentos e da energia. Mentira. Afinal, os aumentos não estão ligados à demanda, mas, sim, a fatores externos e estruturais. É o caso do café, que teve o preço elevado devido às altas temperaturas que afetam a produção.
A energia ficou mais cara por conta da escassez de chuvas e da crise hídrica que impacta as hidrelétricas. Já o recente aumento no preço dos ovos foi motivado pelo calor extremo, maior procura durante a quaresma e aumento da exportação para os Estados Unidos, onde o surto de gripe aviária levou os preços às alturas.
Ou seja, a alta da Selic não ataca a raiz do problema. Ao contrário, agrava o cenário econômico e amplia desigualdades sociais. Enquanto poucos acumulam ganhos expressivos com juros altos, a imensa maioria do povo paga a conta com dificuldades crescentes para sobreviver.