884 páginas
No artigo, o cineasta, diretor teatral, poeta e escritor, Carlos Pronzato fala sobre o relatório da PF que tornou réu Jair Bolsonaro.
Esse o número de páginas do relatório da PF entregue à Procuradoria Geral da República (PGR) para o julgamento no qual o Supremo Tribunal Federal (STF), em 26 de março, tornou réu Jair Bolsonaro (e mais sete acusados) na causa da trama golpista que culminou em 8 de janeiro de 2023, na invasão da Praça dos Três Poderes, após a eleição ganha pelo presidente Lula. O ministro Alexandre de Moraes, afirmou: “sabia, participou e discutiu” o roteiro do golpe frustrado. Antes do ministro o povo brasileiro também sabia, e eu também, e ciente disso já naquela época, escrevi uma comédia teatral denominada: Capitólio Caipira, a invasão. A trama real ficou tão óbvia que só admitia a transposição numa sátira política, prato cheio para Aristófanes.
Em 34 páginas “resolvi” o que o relatório concluiu em 884! A Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal, o Exército e todo o elenco bolsonarista participam da comédia, desde o patriota do caminhão, as motociatas e os protestantes na frente dos quartéis à família do ex-presidente, passando pelos empresários, políticos e até o próprio Donald Trump, de quem ainda aguarda ajuda.
E não é por vaidade intelectual, ou visões inexpugnáveis para o comum dos mortais, que rascunhei as linhas acima. É simplesmente porque considero que o fazer político neste país foi comprimido, há já bastante tempo, apenas nas três iniciais de um dos órgãos do Estado burguês, na forma de um teatro político: o STF e também na magistratura como um todo, dona e senhora da arquitetura do sistema, com seus rendimentos milionários e o resguardo da conciliação de classes.
O espetáculo democrático do julgamento se desenrola com poucos sobressaltos, sem a dinâmica das ruas, sem a massa espontânea - ou mobilizada diariamente pelos sindicatos e partidos das denominadas esquerdas - que sofreu durante os quatro anos do poder do réu, penúrias de toda ordem e principalmente as milhares de mortes evitáveis sob o tétrico manto da Covid-19. Portanto, bem ao gosto de uma plateia burguesa - e de uma torcida feliz dos partidos da ordem - a exploração da classe trabalhadora e a saúde das instituições permanecerão intactas, seja qual for o resultado do julgamento. A decisão da Justiça - e esperamos que seja a condução direita à prisão -, após a descida do pano de boca, continuará na defesa imperturbável da classe que sempre controlou o país, auxiliada pelas Forças Armadas, mantendo distante a participação popular.
No diálogo final da peça, entre o guarda e o novo diretor da prisão, que aguardam a chegada dos mais de mil detidos do dia da invasão, diante da pergunta do guarda, “de quem depende o encarceramento do chefe?”, o diretor responde, apontando o público: “de vocês”.
* Carlos Pronzato é cineasta, diretor teatral, poeta e escritor. Sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB).