Entrevista

A economia está no fundo do poço

Postado dia: 11/07/2017 - 09:43

Em entrevista ao jornal O Bancário, o economista e professor da Unicamp, Luiz Gonzaga Belluzzo avaliou com clareza que a economia brasileira está no fundo do poço e a causa disso é a retirada do pilar da soberania popular, do voto. Para o especialista, hoje, há um limbo social no Brasil produzido por uma crise nas instituições, onde “tem juiz que fala mais do que a boca”.

Por Rafael Barreto

O Bancário: Há chance de a economia brasileira apresentar alguma recuperação a curto ou médio prazo?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Essa chance depende da ação humana. Se ninguém fizer nada, a economia vai continuar estagnada. Ela tá parada, no fundo do buraco. Se não houver nenhuma atitude do governo de começar a reparar o dano que ele mesmo causou, fazendo um ajustamento público, a economia vai continuar flutuando nesse nível muito baixo. 

O Bancário: O que mais contribui para a recessão que o Brasil está mergulhado?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Vários fatores. Primeiro que, em 2013, a economia começou a desacelerar porque o ciclo virtuoso que deu taxa de crescimento alta no governo Lula começou a cair. Mas não era um desastre. O PIB cresceu 3,9%, depois 2,3%. E em 2014, caiu para 0,5%. Aí, em 2015, chamaram o Joaquim Levy para fazer o ajustamento público, que foi uma coisa muito insensata. Deram um choque de tarifas e um choque nos juros. Passou os juros de 7,25% para 14,25%. E isso pegou as empresas no contrapé. Fizeram também um corte violento no PAC. O que aconteceu em seguida, todos sabem. As empresas se protegeram parando de contratar e passaram a demitir. O que causou vários danos para o país. E ainda teve economista que disse que a atitude ia recuperar a confiança. 

O Bancário: As reformas neoliberais têm mesmo condições de impulsionar a economia, como afirma o governo?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Isso aí é outra coisa ridícula. Eu não nego que se precisa fazer reforma na Previdência, sobretudo em relação à desigualdade do sistema previdenciário. A desigualdade nasce de certo segmento da sociedade que recebe 10, 20 vezes mais do que um aposentado do setor privado. Eu vou dar o meu exemplo. Sou aposentado pela UNICAMP. Ganho R$ 25 mil de aposentadoria. Meu amigo, que é professor de universidade privada, recebe R$ 3 mil de aposentadoria. Você acha isso justo? Falo do meu caso para não ser hipócrita. Tem de fazer reforma da Previdência. Mas não é na direção do que eles estão fazendo. 

O Bancário: É possível sair da crise econômica sem a superação da crise política?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Eu acho muito complicado. Você tem uma determinada arquitetura que está em cima de um pilar, que é a soberania popular, o voto. Aí você tira esse pilar e acha que tudo vai ficar bem. Mas não. A casa começa a desmoronar. Como um efeito de dominó. Uma coisa batendo na outra. O Judiciário começa a se comprometer com coisas que não se deve. O Ministério Público começa a assumir um protagonismo que não existia no Brasil e nem deve existir. Meu pai foi juiz e nunca deu uma entrevista para a Rede Globo. Porque havia um princípio de que o juiz só fala nos autos. Você criou uma crise com isso. Tem juiz que fala mais do que a boca. Fala sobre tudo. Fala sobre o caso que está julgando. Onde já se viu? 

O Bancário: Estamos vivendo o neoliberalismo ou a democracia social?
Luiz Gonzaga Belluzzo:
Nós vivemos uma espécie de limbo. Porque fizemos avanços na democracia social desde a Constituição de 1988, que foi sendo executado a trancos e barrancos e eu me lembro de dona Ruth Cardoso tentando fazer um programa social, o Lula fez coisas importantes, e agora nós estamos em uma tentativa de regressão. Com ideias regressivas. As propostas do neoliberalismo estão completamente desmoralizadas na Europa. O povo europeu, inclusive, quer que os governos devolvam para ele aqueles dias em que foi construído o Estado do Bem-Estar Social. E isso vai adiante. E vem pro Brasil também. Chegará com atraso, mas vem.