Entrevista

Na Caixa, mobilização deve ser de todos

Postado dia: 21/06/2016 - 16:48

Em entrevista ao presidente da AGECEF-BA (Associação dos Gestores da Caixa), Antonio Vianna, o presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia, Augusto Vasconcelos, faz uma importante análise para o futuro da Caixa, com a crise política brasileira e o governo interino de Michel Temer. O cenário é difícil e requer mobilização de todos.
 
ANTÔNIO VIANNA: Primeiro, gostaria de saber quais são as perspectivas com Gilberto Occhi à frente da Caixa?
 
AUGUSTO VASCONCELOS: Esse governo provisório que se instalou no Brasil, sem dúvida tem apontado para caminhos ruins em relação às estatais. Há uma compreensão de que as empresas públicas são ineficientes e que, portanto, devem ser entregues ao mercado e o futuro presidente do banco, Gilberto Occhi já declarou ser a favor da privatização. Esse tipo de opinião é muito ruim. 
 
ANTÔNIO VIANNA: Qual é a opinião dos trabalhadores, sobretudo dos empregados da Caixa diante de um futuro difícil?
 
AUGUSTO VASCONCELOS: Não concordamos com a opinião do governo Temer. Achamos o contrário. As estatais são fundamentais para o país. Inclusive com atuação anticíclica como feito pela Caixa Econômica, quando reduziu o spread bancário, as tarifas e os juros no momento em que o Brasil mais necessitava. Isto só é possível em uma empresa que tem 100% de capital pertencente ao Estado. Se o capital da empresa for aberto podemos ter grandes retrocessos, porque os interesses privados, que visam o lucro, vão passar a presidir a orientação da instituição. 
 
ANTÔNIO VIANNA: Você está na Caixa desde 2004. Já foi da Comissão Executiva dos Empregados e hoje é presidente do Sindicato dos Bancários da Bahia. Tem propriedade para falar dos avanços e problemas do banco na última década...
 
AUGUSTO VASCONCELOS: A empresa se fortaleceu na última década. Teve praticamente 40 mil novos empregos. Nos últimos três anos temos verificado uma redução no nível de postos de trabalho. Inclusive, estamos na Justiça cobrando a contratação dos aprovados no último concurso, mas reconhecemos que a Caixa cresceu na última década. A proposta de abertura de capital, apresentada pela presidenta Dilma no início do segundo mandato, foi derrotada pelos funcionários. Conseguimos uma grande mobilização que modificou a opinião do governo. No entanto, as ameaças não acabaram. Vieram com o PLS 555, que teve como autores os senadores Tarso Jereissati e Aécio Neves (ambos do PSDB) e agora com o ataque direto da direção do banco, através do presidente Gilberto Occhi.
 
ANTÔNIO VIANNA: Como deve ser a interlocução da Comissão Executiva dos Empregados com a nova direção?
 
AUGUSTO VASCONCELOS: Esperamos que não seja interrompida. Viveremos momentos difíceis. Há uma compreensão no atual governo de que as estatais representam um custo desnecessário para a máquina pública. Bem diferente da nossa opinião. As estatais são fundamentais para o desenvolvimento do país. Sem elas, o Estado perde instrumentos de indução na economia, que possibilitem que o Brasil atue sem sofrer tanto os reflexos da crise econômica internacional. Tem mais, a Caixa tem de ter um papel de atuação no mercado, para regulação dos juros, tarifas e o oferecimento de crédito para a população, mas, ao mesmo tempo, o banco cumpre função social de grande relevância, como os programas Minha Casa, Minha Vida, o Fies e a administração do FGTS. 
 
ANTÔNIO VIANNA: Quais as expectativas para o próximo período?
 
AUGUSTO VASCONCELOS: Os trabalhadores devem sofrer grandes ataques, não só nos direitos trabalhistas e previdenciários, mas também em questões do dia a dia do funcionamento da empresa. No entanto, vamos resistir e enfrentar qualquer tentativa de retrocesso. Não admitidos que a instituição financeira vire às costas para os funcionários. O momento é difícil, mas também é de resistência e nesses cenários os empregados da Caixa e dos demais bancos deram provas de que têm grande capacidade de mobilização. A gente tem consciência de que o país vive em grave crise econômica e política de grandes proporções. Uma presidenta que não tem crime de responsabilidade sofre processo de impeachment. Assumiu um governo que não tem compromisso com os setores menos favorecidos da população e é óbvio que isso vai impactar no modelo de gestão da Caixa. Agora, vamos resistir.   
 
ANTÔNIO VIANNA: É possível impedir perdas com mobilização?
 
AUGUSTO VASCONCELOS: Nenhuma conquista veio de graça na Caixa. Tudo foi fruto de muita mobilização. Mas, é inegável que o ambiente mais favorável de preservação da democracia e da institucionalidade facilita conquistas para o trabalhador, enquanto que em momentos de exceção, como vivemos, dificulta. Até porque a pauta apresentada pelo governo tem características neoliberais, que visam diminuir a força dos trabalhadores. Isso vai impactar, sem dúvidas, nas campanhas salariais e nas negociações permanentes. A mensagem que passamos é de resistência e coragem para enfrentar o momento difícil. Não vamos aceitar chantagens, porque no governo de Fernando Henrique Cardoso, de aprofundamento neoliberal na empresa, mais de 800 colegas foram demitidos sem justa causa. Ficamos 8 anos sem reajuste salarial e as greves tinham dificuldades de ocorrer, por conta das retaliações. Porém, hoje há uma resistência na sociedade em aceitar modelos que retirem direitos e programas que beneficiam pessoas antes excluídas. Vamos resistir em defesa da Caixa, mas, principalmente, em defesa do país.