Entrevista

Jornalismo não deve ser parte do jogo político

Postado dia: 10/12/2014 - 08:45

Por Rafael Barreto

As eleições de outubro deixaram como legado a urgência no debate sobre a regulamentação da comunicação no Brasil. Consciente da ebulição política que até hoje tem repercussão no país, O Bancário foi buscar respostas com o filósofo, antropólogo e cientista político Wilson Gomes.
 
O Bancário: Países como Argentina, Uruguai e Equador já têm leis de regulação dos meios de comunicação. O que falta para o Brasil?
 
Wilson Gomes: Falta apoio no Congresso. Mas, primeiro, precisa de certo entendimento sobre o que é que se quer regular. Isto é fundamental. Essa agenda de regulamentação da mídia tem sido muito perturbada no Brasil por questões ideológicas. Quando se fala em regulamentação da mídia, uma boa parte do público entende controle da imprensa e isso, de fato, não é uma ideia agradável. Esta é uma zona política com muitos ruídos e sem inocentes. A ideia podia ser mais bem vendida se as dimensões fossem separadas. Por exemplo, este projeto de Lei de Iniciativa Popular para regulamentação da mídia eletrônica tem coisas legais como o problema da propriedade cruzada, por exemplo. Acho que a interdição da propriedade cruzada nos meios de comunicação é uma ideia que pode ser comprada pela sociedade, se bem apresentada. 
 
O Bancário: Dilma, após as eleições, afirmou ser prioridade realizar a chamada regulação econômica da mídia. O que isso significa na prática?

WG: Neste ponto, o discurso está tão polarizado atualmente que a pessoa fala amarelo e o outro entende azul. Se eu fosse Dilma, não tocava nesses pontos agora. Essas pautas estão muito à esquerda. Porque, para ser derrotado, basta ter cheiro e aparência de esquerda. Nem precisa ser de esquerda. Aquele Plano Nacional de Participação Social é um elemento de democracia participativa, que é uma ideia aceita mesmo em países mais liberais. Mas, do modo como foi apresentado, não passa. A antipatia social é enorme e os nervos estão à flor da pele. O tamanho da esquerda é mínimo no Parlamento. Quem ganhou essa eleição não foi à esquerda, foi o centro. O centro-esquerda e o centro-direita é hoje o grande volume no Brasil. Então você tem que fazer propostas com o apoio do centro, não tem outro jeito.
 
O Bancário: Quais os avanços mais urgentes para democratização da mídia brasileira? 

WG: Se conseguir avançar pelo tema da propriedade cruzada está ótimo, mas qualquer outro tema que está associado ao campo da mídia, não vai funcionar neste momento. E mesmo assim, ao contrário do discurso dominante de que os meios de comunicação estejam contaminados e antidemocráticos, eles não ganham as eleições, senão a Veja teria vencido. A edição da Veja da quinta-feira que antecedeu o segundo turno serviu basicamente para inflamar e dar combustível a militância que já era anti-petista, mas duvido que tenha movido algum voto. Não existe esse sujeito em sã consciência que deixa para mover o seu voto na quinta-feira antes do domingo eleitoral e ainda por causa de Veja. Os meios de comunicação fazem a parte dele. Muitos têm exemplos que são lamentáveis ao se comportarem como atores políticos para eleger os seus candidatos e partidos. Neste exemplo está circunscrito no caso da mídia de direita que é a Veja. Mas não se pode generalizar a Veja. Generalizá-la é um tiro no pé porque você concede poder demais a Veja e produz um rebaixamento do jornalismo. O jornalismo brasileiro tem um nível muito superior a Veja. Veja tira 1,3 milhões de exemplares. 1,3 em uma população de 200 milhões de pessoas. Quem é que lê Veja? O cara que precisa de Veja porque ele é da direita. Veja não cria público. Veja é a resposta para o público de direita. Tem mais gente de direita do que gente que lê Veja. Essa obsessão com Veja é o que Veja quer, inclusive. 
 
O Bancário: E os monopólios da comunicação?

WG: Esse é um problema de propriedade dos meios de comunicação. Eu acho que a regulamentação da comunicação precisa ser feita nesse sentido porque o sujeito não pode fazer o que quiser com os meios. Não pode um jornal ser parte do jogo político para eleger um candidato. Isso não é um bom modelo. Mas o modelo de comunicação do Brasil, em geral, é muito parecido com o melhor padrão que existe em qualquer lugar do mundo. Claro que não é o perfeito. Por isso, a crítica deve ser feita no jornalismo diário.