Entrevista

Doença ocupacional

Postado dia: 14/04/2009 - 09:17


O médico do trabalho, Carlos Valadares, fala porque a categoria bancária é uma das mais afetadas pelas doenças ocupacionais, sobre como identificar as LER-Dort, dos problemas com a Previdência Social e da importância do trabalhador ser orientado pelo Sindicato.
 

O que é uma doença ocupacional e como identificar?

Carlos Valadares - É aquela que é produzida pelo trabalho ou pelas condições que ele é realizado. Toda doença que é ocupacional e caracterizada pelo INSS equivale a um acidente de trabalho. Cada ocupação tem um tipo de doença que é particular. Por exemplo, se a pessoa trabalha com chumbo terá uma doença causada pelo manuseio do chumbo. Quando uma pessoa trabalha no banco o mais comum são as tendinites e tenossinovites, que são as chamadas LER/Dort. A gente tem de saber como a pessoa trabalha para identificarmos que tipo de doença pode desenvolver.

 

Existem formas de prevenir as doenças ligadas ao trabalho?

CV - A essência de tudo é fazer o controle dos riscos, prevenir. Esse é o objetivo principal do Sindicato dos Bancários, atuar no momento da prevenção para evitar que haja danos, lesões aos trabalhadores e um conjunto de repercussões para a família. Essas doenças vão incidir no INSS, que vai ter de pagar benefícios, nas empresas que vão arcar com o processo de afastamento e tudo isso reflete diretamente na vida do trabalhador, que é o mais prejudicado.

 

O que gera essa grande ocorrência de trabalhadores lesionados principalmente na categoria bancária?

 CV - Antes o pensamento era de que as tendinites e tenossinovites ocorriam devido a quantidade de toques por hora no computador, isso é realmente um fato, já que o bancário dava de 16 a 18 mil toques por hora, uma sobrecarga grande para quem não tinha pausas. Por isso, o Ministério do Trabalho editou uma norma que diz que o máximo de toques por hora tem de ser 8 mil e introduziu pausas no trabalho. Mesmo com essas medidas os problemas continuaram. Então a culpa ficou sendo da mesa, da cadeira e dos equipamentos que geravam posturas incorretas, o que também é verdade. Porém, hoje existem outros fatores que são considerados mais importantes, que são as metas que a pessoa muitas vezes não tem como cumprir, a pressão para alcançar os resultados, o medo de ser demitido, o pânico de assaltos, enfim, é um conjunto de tensões que causam contrações musculares e a pessoa continua tendo a doença. O que tem de ser levado em consideração são todos os fatores de risco e atuar para evitar que esses fatores possam acometer a categoria.

 

O que o bancário deve fazer ao perceber que sofre de uma doença ocupacional?

CV - Se o trabalhador sentir alguma dor diferente, no caso dos bancários dores na coluna, no braço, punho, cotovelo, ombro, começou a sentir medo de trabalhar, medo de ser assaltado, a ter problemas de depressão e outros de natureza mental é preciso procurar imediatamente um médico. Como os médicos normalmente não dão diagnósticos relacionados ao trabalho é conveniente que o bancário procure o Sindicato para orientação. É importante procurar ajuda ainda na fase inicial porque os problemas vão se agravando e o tratamento fica mais difícil. Encontramos bancários com mais de 20 anos de trabalho que têm atestado de 20 dias de afastamento e que não se afastam com medo da demissão e acabam sendo demitidos doentes, o que gera uma situação muito mais complicada.

 

De que forma o Sindicato pode ajudar o trabalhador?

CV - Orienta o trabalhador a procurar um médico especialista na área que tenha originado o sintoma. O segundo passo é garantir os direitos dos trabalhadores, um deles é o direito de se tratar e evitar que o problema piore. Informa também sobre a necessidade de emissão do Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT), mesmo que não seja necessário afastamento, mas para ficar registrado que a pessoa tem um problema de natureza ocupacional, que muitas vezes a empresa não reconhece. Além da orientação médica existe um apoio jurídico caso seja necessário.

 

O que faz o bancário esconder a doença e conviver com a dor?

É fundamentalmente o medo de ser demitido. Além disso, se ele tem algum problema dificilmente vai ser promovido e a carreira pode ser prejudicada. Outro ponto é a questão das metas, para alcançar os bancários começam a fazer hora-extra, trabalham fora da agência, seja em casa ou no momento de lazer, para não se expor como alguém que tem um problema laboral, o que só agrava o problema de saúde.

 

Porque o trabalhador enfrenta tantos problemas com a Previdência Social?

O problema é que legalmente é a Previdência que define se o problema é ocupacional ou não e diz se o trabalhador tem capacidade laboral. Nos últimos anos o INSS tem feito um discurso de que há um déficit e por isso deve dar alta, a chamada alta programada. Com isso, estão programando alta indiscriminadamente de pessoas que têm problemas graves, muitas vezes o trabalhador é liberado e a empresa devolve para o INSS. Isso gera um problema porque as pessoas estão tendo uma alta indiscriminada. A outra questão é em relação ao nexo com o trabalho, o único órgão que pode definir isso é o INSS e que ao longo dos anos não tem feito esse reconhecimento, por isso tem tido um sub-registro de acidente de trabalho.

 

Isso significa que o número de lesionados é bem maior do que o registrado?

Justamente para corrigir o sub-registro foi criado o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário que se o trabalhador chegar com uma determinada doença que for ligada a ocupação automaticamente é visto como acidente de trabalho. Cabe a empresa demonstrar que o problema não é ligado ao trabalho. Antes o trabalhador é que tinha de provar que a doença era ocupacional, o que é uma vantagem para o trabalhador. Mesmo assim estão querendo passar por cima dessa legislação, muitos peritos dizem que o problema não é do trabalho. A outra questão é o atendimento do INSS, é muito difícil alguém ser atendido de forma rápida e eficiente. A única garantia para o trabalhador receber orientação corretada para saber como agir com a empresa e com o INSS é através do Sindicato.