Entrevista

Colapso nas agências

Postado dia: 02/04/2014 - 20:08

Nas agências bancárias do país falta tudo, a começar por funcionários. A infraestrutura é péssima. Não raro, os clientes são obrigados a esperar horas por atendimento em meio à poeira, fedor de tinta e no calor. Passar o dia todo em um ambiente desse chega a ser humilhante. É justamente o que acontece com o bancário. Quem fala sobre a falta de condições de trabalho e os reflexos no atendimento ao cliente é o vice-presidente do Sindicato, Augusto Vasconcelos, em entrevista concedida ao jornal O Bancário.
   
O Bancário - A que você atribui o aumento dos problemas nas agências? Antes acontecia mais no início do mês. Agora, quase todos os dias e em todos os bancos.
 
Augusto Vasconcelos - O aumento dos problemas nas agências decorre de uma série de fatores, mas especialmente da falta de contratações. Os bancos utilizam a rotatividade para diminuir os custos. Fato que, evidentemente, reduz o estoque de empregos no setor. Aliado a isso, tem a bancarização, que incluiu mais pessoas ao sistema bancário. Então temos dois cenários. O aumento considerável da demanda e a eliminação dos postos de trabalho, que traz sérios prejuízos para todo o conjunto da sociedade.
 
O Bancário - Sobre a Lei dos 15 minutos. A fiscalização é precária. Uma parte do problema poderia ser resolvida se houvesse fiscalização efetiva?
 
AV - Lutamos por muito tempo pela aprovação da Lei dos 15 minutos. Salvador é uma das pioneiras na aprovação da legislação que contou com participação intensa do Sindicato. A nossa batalha era criar um mecanismo de punição aos bancos, para forçar as contratações. Mas, o que percebemos é que, em virtude da falta de fiscalização, as empresas não adotam as medidas necessárias. E as punições se refletem em multas insignificantes diante da lucratividade do setor.
 
O Bancário - Como bancários e clientes podem reagir para cobrar medidas efetivas dos bancos?
 
AV - Inicialmente, exigindo que os órgãos fiscalizadores adotem as medidas previstas em lei. Enquanto consumidores, adotar também critérios para escolha do banco. Empresas que tenham maior número de empregados, que prestem melhores e mais céleres condições de atendimento, sem explorar o trabalhador são, sem dúvida, mecanismos que o cliente pode adotar. Além de ingressar também com ações judiciais, porque já há uma jurisprudência se formando nos tribunais de que cabem danos morais para o consumidor que não é atendido nos 15 minutos previstos pela legislação. 
 
O Bancário - E com relação aos constantes problemas estruturais, como ar condicionado que sempre quebra. Como agir?
 
AV - O Sindicato tem adotado várias frentes para combater este tipo de situação. Uma frente institucional, uma frente jurídica, denunciando os casos ao MPT (Ministério Público do Trabalho) e à SRT (Superintendência Regional do Trabalho) e uma frente no campo da negociação, levando o assunto para as mesas nacionais e, localmente, com as superintendências e as direções regionais dos bancos. Fazemos iniciativa ainda no campo das mobilizações. Achamos que as paralisações das agências é uma medida drástica que traz transtornos para a população, mas, muitas vezes, é a única possível para enfrentar a ganância das empresas.
 
O Bancário - O setor bancário é o que mais lucra e também o que mais demite. Como o Sindicato atua no sentido cobrar do governo federal leis que evitem as demissões sem justificativa? 
 
AV - Desde os anos 90, lutamos pela aprovação da convenção 158 da Organização Internacional do Trabalho que prevê mecanismos para inibir e proibir a dispensa imotivada. A convenção chegou a ser assinada pelo Brasil, mas, no governo Fernando Henrique Cardoso, a assinatura foi retirada sem consulta do Congresso Nacional. De lá para cá, existe uma ação direta de inconstitucionalidade no Supremo Tribunal Federal tratando do assunto que, até hoje, não foi julgado. Então, nós estamos pressionando o STF no intuito de julgar rapidamente a questão. Paralelo a isso, na negociação com a Fenaban (Federação Nacional dos Bancos), brigamos para incluir cláusulas de proteção ao emprego, como, por exemplo, a estabilidade pré- aposentadoria.