Entrevista

Escravos da economia

Postado dia: 31/03/2014 - 10:01

Um choque de realidade. A ditadura militar no Brasil completa 50 anos terça-feira, 1º de abril. Mas, para o ativista social e economista, João Pedro Stédile, membro da direção nacional do MST (Movimento Sem Terra), embora o regime militar tenha acabado, o país hoje vive sob os olhos repressivos da “ditadura da Globo” e da “ditadura econômica”. As declarações foram feitas em entrevista para a equipe de reportagem do jornal O Bancário, ao final do 3º Fórum do Pensamento Crítico, que aconteceu com o apoio do governo do Estado e da Fundação Pedro Calmon.
 
O Bancário – Atualmente, o país vive em uma democracia onde o povo pode fazer a sua vontade?
 
João Pedro Stédile - Nós derrotamos a ditadura militar e reconstruímos um processo democrático no país. Mas a democracia que criamos foi uma democracia formal, do voto e da eleição. O povo ainda não é soberano da sua vontade. Não consegue transferir as suas vontades para dentro das instituições do Estado, que ainda são controladas pela burguesia. E a elite, muito esperta, para manter o controle, se utiliza de duas ditaduras. 
 
O Bancário – E quais são essas ditaduras?
 
JPS - A primeira é a ditadura da Globo. Porque as poucas famílias que controlam os meios de comunicação ditam qual deve ser a opinião pública. Manipulam e tiram o foco dos problemas centrais do país. A segunda é a ditadura econômica. No fundo todo o brasileiro trabalha para os bancos. Porque tudo que é acumulado vai para lá.  Então, o maior explorador nem sequer é o patrão industrial ou é o comerciante. Os grandes espoliadores de todo o povo brasileiro hoje são os bancos.
 
O Bancário – Como os bancos agem explorando os trabalhadores?
 
JPS - Os bancos cobram juros de forma direta, quando você depende do empréstimo ou mancomunado com as empresas. Quando você compra uma geladeira nas Casas Bahia, por exemplo, paga uma parte para a Brastemp e outra para o Itaú. E a segunda forma de espoliarem é através da receita do FMI (Fundo Monetário Internacional), que é o superávit primário. O governo, que tem medo de romper a lógica, todo ano, separa 30% dos nossos impostos para os bancos, que transferem o dinheiro para apenas 15 mil famílias, os acionistas. Então, o povo é escravo de uma ditadura econômica, que é clandestina e subterfugia, mas que está na lógica do dia-dia.
 
O Bancário – Uma das reformas pretendidas pelo governo João Goulart foi a reforma agrária. Como está esse processo hoje?
 
JPS - A reforma agrária está parada desde o João Goulart. A reforma agrária que o povo pretendia na época era dentro de um conjunto de reformas de base para desenvolver o mercado interno ainda nos marcos do capitalismo nacional. Nem isso a burguesia aceitou e se aliou ao Exército e ao imperialismo americano para fazer o golpe. Após a ditadura, aquele tipo de reforma perdeu o sentido porque não existe mais uma burguesia nacional que se interesse em desenvolver o mercado. É por isso que todos os latifúndios desapropriados, só foram distribuídos porque o povo ocupou. Foi uma decisão política do governo, apenas. A reforma agrária não existe mais. O que existe são assentamentos resultantes da luta dos camponeses. 
 
O Bancário – O que os movimentos tem feito em relação à reforma?
 
JPS - Diante disso, nós do MST (Movimento dos Sem-Terra do Brasil), junto com outros setores da Vila Campesina, elaboramos um novo programa de reforma agrária, mas de uma reforma agrária popular. Então, você tem de começar pela distribuição de terras, mas colocar como objetivo primordial a produção de alimentos sadios para todo o povo. Porque o agronegócio e o capital só produzem alimentos com veneno. O Brasil consome hoje 20% de todos os venenos produzidos no mundo. Isto é um crime. Então uma reforma agrária popular é para colocar no lugar do veneno, a matriz da agroecologia, que gera uma enorme quantidade de emprego, junto à implantação de agroindústrias na forma de cooperativa, à produção de sementes orgânicas e à democratização a educação, porque sem conhecimento, ninguém se liberta.