Entrevista

A realidade nua e crua

Postado dia: 26/03/2014 - 10:39

Jornalista político e ativista de movimentos como o MR-8 (Movimento Revolucionário de 8 de outubro) na época da ditadura civil-militar, Franklin Martins enxerga para além da “noite de terror” que foi o regime. Presente no 3º Fórum do Pensamento Crítico, realizado nesta semana, em Salvador, o jornalista é enfático ao afirmar que praticamente todos os grandes meios de comunicação apoiaram os militares e até se fortaleceram com eles. A entrevista foi realizada pela equipe do jornal O Bancário minutos antes de ele subir ao púlpito da mesa de debates sobre os 50 anos da ditadura.
 
O Bancário - Qual a importância de fóruns como esse para discussão e resgate da memória dos 50 anos da ditadura civil-militar no país?
 
Franklin Martins - É uma rememoração do passado e serve também de aprendizado. A ditadura foi muito mais do que uma longa noite de terror. Foi também um momento onde o brasileiro apelou para todas as suas forças e conseguiu construir um pensamento político e uma maturidade democrática. Então, debates como o que está sendo realizado em Salvador são importantes porque existe uma certa linha de continuidade na nossa história. O que o Brasil está vivendo hoje, as políticas de inclusão social, um regime democrático, que respeita as manifestações, isso tem a ver com o aprendizado desse período. É discutindo e debatendo que o povo terá mais percepção. Desta forma, o brasileiro pode ser agente da própria história.
 
O Bancário - Em relação aos meios de comunicação. Qual é o papel da grande mídia na implantação do regime militar?
 
FM - Praticamente todos os grandes grupos de comunicação da época, com exceção da Última Hora e da TV Excelsior, apoiaram o golpe. Muitos se arrependeram depois, outros pagaram o preço. Já outro grupo se fortaleceu imensamente, como é o caso da Rede Globo, que construiu seu império das comunicações na ditadura civil-militar. Portanto, o regime não um fato em que poucos oficiais isolados do resto do país implantaram. Foram oficiais, generais, almirantes e brigadeiros que se uniram com o empresariado, com os grandes grupos de comunicação e com o departamento de Estado dos Estados Unidos para o golpe acontecer. Foi também a união do pensamento da direita com a prática dos setores conservadores que não conseguiam conviver com o voto, não aceitavam a democracia, nem a ideia de inclusão social. Por isso, houve o golpe.  Reforma agrária para eles era comunismo, voto do analfabeto era comunismo. 
 
O Bancário - Qual a importância do movimento sindical e social na luta contra a repressão?
 
FM – A imprensa sindical teve uma importância muito grande na resistência à ditadura. Entendendo que houve a intervenção da maioria dos sindicatos, perseguição e punição aos dirigentes. Então foi uma resistência de trabalho de “formiguinhas”, um trabalho que se fazia em condições muito difíceis. Mas que teve uma importância muito grande, em um primeiro momento com menos força e, mais tarde, com muito mais peso, quando se deu a luta pela retomada democrática com mais vigor.