Entrevista

Lutar vale a pena

Postado dia: 21/03/2014 - 10:57

Demorou cinco décadas. Mas, finalmente Osmar Pereira Ferreira, hoje com 70 anos, começa a ver a justiça ser feita. Na luta pelos direitos retirados pela ditadura civil militar, o ex-bancário, perseguido, preso e torturado pelos militares acaba de conquistar uma importante batalha. 
 
Em decisão unânime, o TST (Tribunal Superior do Trabalho) obriga o Bradesco a reintegrar o funcionário, demitido por perseguição política 12 dias depois de ser solto. Em entrevista para O Bancário ressalta, com olhos vermelhos e marejados, o trabalho desempenhado pelo advogado do Departamento Jurídico do Sindicato da Bahia, Nizan Gurgel. 
 
 
O Bancário: Como foi o dia 8 de abril de 1964 para o senhor?
 
Osmar Ferreira: Foi o pior dia da minha vida. Fui chamado no banco por um sargento do Exército e dois soldados da Polícia Militar, todos armados de metralhadora. [Olho 1] Um desses soldados ficou na porta da agência.  Em alguns minutos, fui convocado à gerência, e lá, informado de que o sargento queria falar comigo e ele [o sargento] me disse as seguintes palavras: “Eu vim aqui lhe convidar para o senhor ir ao 1° Batalhão da Polícia Militar”. Informei que terminaria o meu serviço, passaria para um colega e dentro de 15 minutos eu iria. Ele disse que eu teria de ir com ele, naquele momento. Fui e aproveitei para me despedir dos meus colegas e pedi que eles rezassem por mim. Voltei à gerência e fui algemado. Quando cheguei no batalhão da Polícia Militar me bateram muito. Queriam saber onde tinha armas. E não tinha arma nenhuma. Não tinha nada. A tortura física só parou quando um falso capelão da Polícia Militar, que eu acho que era um agente da CIA (Agência Central de Inteligência), me aplicou um telefone e exclamou: “Diga onde estão as armas”. Foi quando o Coronel Luiz Arthur de Carvalho, à época major, se levantou e disse: “Alto lar! Vocês estão espancando uma criança. Eu tinha completado 21 anos na véspera. 
 
O Bancário: Foram 12 dias presos. Sua carreira profissional foi interrompida. Como foi esse período? 
 
Osmar Ferreira: Foi terrível. Minha família sofreu muito porque a polícia os pressionava e os ameaçava também. No dia 20 de abril, amigos do meu pai conseguiram a minha liberação condicional, graças à interferência de um advogado de Feira de Santana, Hugo Navarro Silva e de Alberto Sampaio de Oliveira, ambos da UDN (União Democrática Nacional). Eu tinha uma carreira belíssima pela frente e fui sumariamente demitido. Quando fui solto e me apresentei ao gerente, minha carteira de trabalho já estava dado baixa. Fui obrigado a assinar todos os documentos. Vivi quatro anos na clandestinidade. Saí de Feira de Santana e fui ser caminhoneiro, junto com o meu pai. Nesse período, o Exército tinha ocupado a cidade e muita gente foi presa e barbaramente torturada. Em 1968, eu voltei para Feira e tive o meu segundo emprego em uma empresa de contabilidade. Fiquei 10 anos sem estudar. Tentava fazer vestibular e as inscrições não eram deferidas. Só em 1974, pude me escrever para o vestibular da Universidade Católica do Salvador. Fiz e passei para Direito. Minha vida foi cheia de dificuldades. Eu sempre aprendi a lutar. Desistir, jamais. 
 
O Bancário: Em dezembro de 2010, o senhor conquistou a anistia política. Em 2011, procurou o Sindicato da Bahia para ingressar com ação contra o Bradesco, para pleitear a reintegração. Está satisfeito com o apoio da entidade?
 
Osmar Ferreira: Essa é uma vitória parcial porque os bancos nunca aceitam uma derrota. Eles sempre vão buscar recursos. Mas, eu vou persistir. Estou com 70 anos e vou vencer porque se o seu direito for violado, lute para restabelecê-lo. Eu tenho certeza de que a vitória final chegará porque eu sempre confiei no meu exercício profissional, na Justiça do Trabalho e, principalmente, pela ajuda que eu tenho recebido dos Sindicatos dos Bancários da Bahia e de Feira de Santana. O presidente do SBBA, Euclides Fagundes, me deu todo o apoio, tanto moral, quanto jurídico. A entidade me deu um dos melhores advogados trabalhistas, Nizan Gurgel, que tem feito um trabalho brilhante. [Olho 2]. Em Brasília, eu contratei, para acompanhar o processo, José Saraiva. 
 
O Bancário: Qual a mensagem que o senhor deixa para os bancários, frequentemente, vítimas de desrespeito? 
 
Osmar Ferreira: Somos vitoriosos. Mas, a guerra ainda não terminou. Vamos vencer todas as batalhas. A minha luta de 50 anos é pelo reestabelecimento da minha dignidade. Do respeito que me foi tirado. Eu, sindicalista, fui demitido de forma irregular. Eu quero que a minha luta sirva de exemplo para os outros bancários. [Olho 3] Esse é o meu interesse maior. Mostrar ao trabalhador brasileiro que ele não deve desistir de lutar e que ele tem de, acima de tudo, prestigiar o seu sindicato de classe. Principalmente os jovens. 
 
O Bancário: Como se deu o processo? 
 
Nizan Gurgel: O então funcionário do Banco da Bahia, Osmar Pereira Ferreira, foi preso e torturado, em 1964, na agência em que trabalhava. Logo em seguida, a empresa o demitiu. À época, todos tomaram conhecimento de que ele havia sido preso e taxado de agitador e comunista. Passado anos, o governo brasileiro abriu a oportunidade para que quem foi perseguido durante a ditadura civil militar (1964-1985), requeresse a anistia política. Osmar então foi ao Ministério da Justiça, fez a solicitação, apresentou as provas e Comissão de Anistia atendeu ao pedido, em 2010. De posse do documento, o bancário procurou o Departamento Jurídico do Sindicato da Bahia para pleitear a nulidade da prisão e, por consequência, a reintegração. A Justiça deu parecer favorável em primeira instância. O Bradesco recorreu. Mas, o TRT (Tribunal Regional do Trabalho) manteve a decisão. O banco recorreu novamente. Mas, o TST (Tribunal Superior do Trabalho) garantiu a vitória para o trabalhador. 
 
O Bancário: O trabalhador ingressou com ação contra o Bradesco em 2011. De certa forma, a tramitação aconteceu de forma rápida. É reflexo do empenho do Sindicato? 
 
Nizan Gurgel: De fato, o processo aconteceu de forma célere, resultado do esforço do Sindicato da Bahia. Como sempre acontece.  A ação nos chamou atenção pelo fato inusitado. Não é corriqueiro. Vitórias como essas demonstram que o Departamento Jurídico da entidade é muito bem preparado [Olho 4] e reforçam a diligência nas questões que ele patrocina. Vale a pena perseverar e procurar os direitos, independentemente, da idade.