Entrevista

“Temos qualificado e intensificado as investigações”

Postado dia: 24/01/2014 - 10:12

Por Rafael Barreto e Rogaciano Medeiros

Somente neste mês de janeiro são 12 ataques a bancos na Bahia. A imensa maioria no interior. Segundo o coordenador do Garcif (Grupo Avançado de Repressão a Crimes Contra Instituições Financeiras), Rusbenil Franco Lima, 48 anos, a situação poderia estar pior se a polícia não tivesse  “qualificado e intensificado as investigações”.

 
Bacharel em Direito, oficial da PM e diretor adjunto do Depin (Departamento de Polícia do Interior), Rusbenil Franco recebeu O Bancário para uma entrevista exclusiva. Segundo ele, os bancos poderiam investir mais em segurança.  

O Bancário: Os ataques a bancos na Bahia seguem em ritmo crescente. A que o senhor atribui esse aumento?
 
Rusbenil Franco: Há uma necessidade de os bancos instalarem caixas eletrônicos em alguns lugares por causa do crescimento populacional e da demanda docomércio. É claro que tem de ser feito em locais longínquos. Mas, tem de ter câmeras e medidas de segurança que minimizem os delitos. O meliante procura locais onde há essa facilidade. Então, a ótica do aumento, nesse ponto, é em razão desse conjunto de fatores. A Polícia Civil está focando em uma investigação qualificada, no sentido de, juntamente com as Forças Armadas, verificar como os explosivos chegam às mãos dos bandidos. Há de se pensar uma forma de os bancos instalarem caixas eletrônicos e agências bancárias em parceria com a polícia, para que a gente também trate da questão da segurança. Colocar posto, mas com câmeras, por exemplo, para facilitar a investigação.

O Bancário: Os bancos têm colocado câmera nesses postos?
RF: Uma grande parte, sim. Mas, ainda encontramos alguns bancos que não têm câmeras no interior e chamamos as empresas para discutir. Temos reunião marcada com o Bradesco, Banco do Brasil e Itaú, para cobrarmos a instalação de câmeras e portas giratórias com detectores de metal.
O Bancário: A Secretaria de Segurança Pública constituiu uma força-tarefa contra roubos a bancos, em janeiro de 2011. De lá para cá, o que mudou?
 
O Bancário: A Secretaria de Segurança Pública constituiu uma força-tarefa contra roubos a bancos, em janeiro de 2011. De lá para cá, o que mudou?
RF: Nós vimos que qualificou a investigação. A ideia do Garcif (Grupo Avançado contra a Repressão de Crimes a Instituições Financeiras), dos grupos avançados e especializados é justamente dar uma qualidade melhor na investigação.


O Bancário: Então, o grande entrave, podemos dizer, são as explosões? 
RF: São as explosões que acontecem de madrugada. Isso ocorre porque, como nós estamos combatendo muito, os criminosos estão migrando para as modalidades que têm um custo benefício melhor. Eles usam poucas pessoas, poucos veículos e têm um retorno significativo. 
O Bancário: Só para ilustrar, dos 12 ataques levantados pelo Sindicato da Bahia este ano, 10 foram explosões.
 
O Bancário: Só para ilustrar, dos 12 ataques levantados pelo Sindicato da Bahia este ano, 10 foram explosões. 
RF: Não que a polícia não esteja preocupada com as explosões. Muito pelo contrário. Como há uma quantidade grande de caixas, o custo benefício para os bandidos é melhor. As pessoas que fazem as explosões são da terra, do interior, são chamadas de “minhocas da terra”. Assim fica melhor para investigar o trabalho dos criminosos. Precisamos da ajuda dos bancos para a instalação de câmeras, porque, às vezes, a sociedade fica com medo de denunciar. Além disso, as ações, em geral, acontecem na madrugada e nas cidades pequenas, em caixas de autoatendimento afastados. Nas cidades menores, nas zonas rurais, as rotas de fuga também são mais conhecidas por eles. 
 
O Bancário: Como os explosivos estão chegando às mãos dos bandidos? O que tem sido feito pela polícia? 
RF: A competência para a fabricação e o controle dos explosivos é do Exército Brasileiro. Então, no país existem várias empresas regularizadas para a venda de explosivos. Existem empresas e pessoas físicas que podem adquirir e utilizar explosivos para determinados fins. O grande problema são as atividades clandestinas. O explosivo sai legalizado, devidamente controlado pelo Exército, só que há o desvio. O Exército controla, mas as empresas irregulares [não dependem só do exército] dependem de outros órgãos – como o Ibama e o DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral). A dificuldade que temos hoje é em relação aos garimpos e as mineradoras. 
As polícias e o Exército estão fazendo trabalhos para a gente tentar, com a fiscalização mais contundente do Exército, forçar as empresas a terem paiol. Mas, para que a gente investigue, temos de ter recursos como câmeras que nos possibilitem enxergar à noite, principalmente, por causa desses ataques que estão acontecendo na madrugada. 
Em relação às armas e munições, parte vem de fora. Temos dificuldades com fronteiras. O armamento entra no Brasil e os criminosos alugam ou compram, nas mãos de determinadas pessoas para assaltar. Estamos com um índice de apreensão de armas importadas muito grande.
 
O Bancário: Diante do que o senhor falou, a gente pode afirmar que os ataques a banco são obras do crime organizado? 
RF: Não diria crime organizado. Eu diria que os bandidos estão se qualificando, melhorando a maneira de atuar. Mas, colocar nesse contexto de crime organizado ou organização criminosa, não. Até porque, nós não temos históricos de grandes quadrilhas. 
 
O Bancário: A polícia está ganhando a guerra contra os bandidos que atacam bancos?
RF: Nós diríamos que, de uma forma geral, sim. Até porque, os crimes contra as organizações financeiras não estão no cenário só da segurança pública. Temos outras questões. Fatores sociais, no que diz respeito à migração, ao êxodo do campo, ao crescimento das indústrias. Os bancos sentem a necessidade de instalar novas agências. Dentro desse contexto, reduzimos todos esses crimes que podem causar danos à vida da pessoa, que nós chamamos de roubos qualificados, além do número de armas. Nós consideramos um avanço muito grande porque, de fato, nós evitamos que a população fique à mercê dos bandidos.
 
O Bancário: Então, se não tivesse um trabalho contundente da polícia, os índices estariam bem maiores?
 
RF: A polícia trabalha para que não haja o crime. Então, se a gente conseguir chegar a um patamar bem pequeno seria ótimo. E assim, em um contexto geral, a participação da segurança pública tem sido fundamental para essa redução. Mas, o processo que a gente procura trabalhar hoje é integrado. 
O Bancário: Além da lei federal, existem leis municipais que visam reduzir os roubos e saidinhas bancárias. Determinam a instalação de biombos e câmeras de segurança, por exemplo. Mas, o que se vê é o descumprimento das normas por parte dos bancos. O cumprimento das leis facilitaria o trabalho da Polícia?
 
O Bancário: Além da lei federal, existem leis municipais que visam reduzir os roubos e saidinhas bancárias. Determinam a instalação de biombos e câmeras de segurança, por exemplo. Mas, o que se vê é o descumprimento nas normas por parte dos bancos. O cumprimento das leis facilitaria o trabalho da Polícia?
RF: Facilitaria muito. Temos de trabalhar integrados e, com certeza, quanto mais dificuldade os bancos criarem para o acesso ao dinheiro, menos ataques. Com certeza, se as empresas colocarem portas-giratórias, os biombos e câmeras de qualidade, ajudaria bastante. 
 
O Bancário: Setores da mídia e a oposição, com interesse político, costumam relacionar os ataques à falta de policiamento. A gente pode fazer essa relação?
RF: A segurança pública não visualiza dessa forma. Após a instalação de um caixa, a população tende a crescer. Sempre. Isso é normal. O ideal seria que o efetivo policial aumentasse também. Temos um número, junto com a Polícia Militar, de policiamento de acordo com o contingente populacional. Em relação ao armamento pesado, nós acreditamos que quem tem de ter são as unidades especializadas para combate. O policial ordinário trabalha com um armamento adequado ao tipo de serviço que desempenha. É um conjunto de fatores: acesso, locais onde os bancos estão situados e horários dos ataques. Não é porque instala um caixa de autoatendimento que vamos aumentar o policiamento. O efetivo é para população. 
 
O Bancário: Quais são as modalidades de assaltos? Qual tem a maior incidência? 
RF: As explosões, os sequestros, tecnicamente nós chamamos de roubo qualificado, que é a utilização de armamentos e grave ameaça às pessoas, os furtos qualificados (utilização de explosivos, arrombamento ou qualquer outro tipo de material) e as extorsões mediante sequestros. Além disso, temos nos roubos qualificados os direitos compulsos (dentro de um crime podem ter diversos outros crimes).