Entrevista

A crise mais distante

Postado dia: 31/08/2009 - 10:12

Por Maiana Brito
Em entrevista concedida em visita a Salvador durante a III Jornada de Debates, o recifense Francisco Oliveira, coordenador de pesquisas do Dieese, falou sobre negociações salariais coletivas em tempos de crise. Para ele, o momento é propício para boas conquistas, embora o sistema financeiro faça questão de endurecer no processo negocial.
 
O Bancário – Quais os impactos da crise para os trabalhadores? E em relação às negociações salariais?
Francisco Oliveira – Os impactos foram muitos, mas não da proporção do que foi divulgado pela mídia. Embora alguns setores tenham sofrido bastante, a exemplo da indústria, outros não perderam tanto. Em geral, do ponto de vista salarial, o impacto foi pequeno, o efeito maior foi em relação ao emprego.
 
O Bancário – Pesquisa do Dieese revelou que 76,7% das categorias com data-base no primeiro semestre conquistaram aumento real. Qual a expectativa para o segundo semestre, quando a crise completa um ano?
Francisco Oliveira – As negociações no primeiro semestre mostram impactos setoriais e a conquista dos sindicatos sobre ganho real, embora tenham sido um pouco menor do que o do ano passado, variando de 0,01% a 2%. Para o este semestre prevê-se, no mínimo, a estabilidade do quadro, pois o momento é de retomada do aquecimento da economia e baixa da inflação. Por conta disso, hoje, a negociação salarial não é um problema e momento é propício para uma conquista mais efetiva em termos de aumento real. No entanto, as empresas rebatem que o período anterior ao primeiro semestre foi ruim e que eles não podem prever a situação.
 
O Bancário – Diante do resultado obtido pelos bancos entre janeiro e junho deste ano, qual a sua avaliação em relação à negociação com os banqueiros?
Francisco Oliveira – A conversa com os banqueiros é sempre difícil. Quase nunca está ligada ao desempenho das empresas. Está mais ligada às ameaças sobre o emprego. Não existe base técnica na argumentação dos empresários para a não concessão de aumento real e da participação nos lucros. A ladainha deles já é conhecida, como diminuição da rentabilidade, principalmente. Neste momento, as empresas vão colocar em questão a queda nos lucros decorrente da crise, o que pode servir de pretexto para endurecer as conversas na mesa. Embora se saiba que não é verdade, pois os resultados não apresentaram prejuízo, muito menos perda de produtividade.