Entrevista

Reinventar o sindicalismo

Postado dia: 12/08/2019 - 14:30

Durante evento que participou semana passada, em Salvador, no auditório do Sindicato dos Bancários da Bahia, o assessor do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar), jornalista Marcos Verlaine, disse que o movimento sindical precisa se reinventar. Urgentemente.


Em entrevista exclusiva a O Bancário, ele afirmou que o maior desafio hoje para o sindicalismo é voltar a mobilizar e encantar os trabalhadores.
 
O Bancário - O que falta para o movimento sindical reagir à altura contra a extinção de direitos trabalhistas e a redução da rede de assistência?

Marcos Verlaine - Compreender essa conjuntura complexa e voltar a fazer coisas relevantes que deixou de fazer, da formação política, dialogar mais com a base, com uma conversa dentro da realidade do trabalhador. Uma conversa que o trabalhador compreenda. O movimento sindical não está fazendo isso. Então precisamos entender o que aconteceu. O que aconteceu não foi apenas uma derrota política eleitoral, foi uma derrota ideológica também.
 
O Bancário - Os movimentos sociais, em particular o sindical, estão distantes das bases? O que fazer para retomar a mobilização?
Marcos Verlaine - Não é simples isso. Precisa melhorar a comunicação, dar mais informação, fazer formação política, apetrechar melhor o sindicato, colocar o sindicato nas redes, essas questões relevantes da comunicação que não são simples. São simples e não são simples. Tem uma complexidade em torno disso. E sintonizar com a realidade, isso é fundamental. Compreender melhor a realidade. Se não houver compreensão da realidade, a gente tem a tendência de errar em função da incompreensão da realidade

O Bancário - O sindicato se distanciou da realidade?
Marcos Verlaine - Com certeza se distanciou. O sindicato hoje tem menos capacidade de mobilização. Claro que é por conta da derrota eleitoral que houve, e não foi uma derrota qualquer. A incompreensão da realidade, isso é relevante porque se você não compreende a realidade você tende a ter um diagnostico errado e irreal e essa é a primeira premissa para desmobilizar, porque você não está avaliando a realidade.
 
O Bancário - Até que ponto a fragilidade dos movimentos sociais contribuiu para a eleição desse Congresso altamente conservador?
Marcos Verlaine - Foi uma contribuição importante. Primeiro porque o movimento social e o próprio movimento sindical estão mais restritos, você tem muito mais gente falando para muita gente. Você não tem mais aquela figura do formador de opinião. Todo mundo em alguma medida forma opinião por conta das redes sociais. Nem sempre essa opinião é mais adequada ou a mais correta, ou a mais completa, e tem muita gente falando. Então, o nosso pessoal tem que ser muito bom para falar e convencer.
 
O Bancário - O Parlamento sucumbiu à partidarização do Judiciário?
Marcos Verlaine - Faz parte da crise política um Congresso mais conservador. Houve o problema do impeachment. Forjaram o impeachment para justificar um conjunto de variáveis que é mais do que o problema de golpe. Não é só isso e essa explicação não é suficiente. Um conjunto de problemas que precisava tirar o PT para o mercado empreender essas políticas liberalizantes implementadas hoje com apoio do Parlamento
 
O Bancário - Como barrar os prejuízos aos trabalhadores, como a reforma da Previdência? É possível rejeitá-la?  
Marcos Verlaine - A reforma da Previdência está eminentemente aprovada. Foi aprovada na Câmara Federal e no Senado a tramitação é mais célere. O movimento sindical não tem capacidade para mobilizar e barrar nenhuma reforma liberalizante, pois perdemos força política eleitoral, poder de mobilização e o poder de influenciar. É importante a gente rever um monte de conceitos para poder consertar erros e ter certa capacidade de mobilização. A sociedade é mais complexa e mais diversa, então a gente precisa dialogar com muita gente. O movimento sindical não dialoga somente com trabalhador da sua base, o bancário não dialoga somente com bancário. Ficou mais complexo e mais diverso, então precisa entender essa realidade e se reinventar.