Entrevista

O Estado antidemocrático

Postado dia: 29/07/2019 - 09:51

O Bancário - O Brasil atravessa um regime de exceção?
SADER - O Brasil atravessa um regime de exceção, que eles querem transformar em um estado de exceção. O regime de exceção é a ruptura das regras democráticas, enquanto o Estado de exceção é fechar as possibilidades de a democracia voltar a ser instaurada.
 
O Bancário - Quais os principais fatores que levaram o Brasil a tamanho retrocesso?
SADER - O primeiro e mais importante é a intolerância da oligarquia que está no poder, de conviver com os direitos dos trabalhadores. Fizeram de tudo, inclusive tramóias e ilegalidades para impedir que o Lula fosse eleito e o Haddad também fosse eleito, que não seriam governos radicais. Seriam governos que conviveriam com os interesses deles, mas afirmariam os interesses dos trabalhadores.
 
O Bancário - Qual a diferença entre o neoliberalismo tucano de FHC e esse ultraliberalismo de Bolsonaro, que no livro o senhor chama de pós neoliberalismo?
SADER - Primeiro, o outro tinha um caráter democrático. Ganhou eleições, perdeu eleições, enquanto esse de agora não tem caráter democrático. Segundo, o neoliberalismo dos tucanos era relativamente mais moderado, sobretudo em termos de políticas sociais, direitos do trabalhador e outras questões. Eram contra, mas conseguiam conviver e tampouco radicalizaram tanto na privatização do patrimônio público.
 
O Bancário – Professor, vivemos o Estado pós democrático, como sugere o título do livro do jurista Rubens Casarra?
SADER - Olha, pós democrático não quer dizer muita coisa, assim como pós neoliberalismo também não quer dizer. Só significa que veio depois. Eu acho que na verdade é um estado antidemocrático. Isso é mais central. Sempre que o neoliberalismo não conquista bases de apoio, suas políticas são muito restritas para manter o interesse da população, eles precisam de um regime de exceção para poder se manter no poder.
 
O Bancário - Bolsonaro conclui o mandato?
SADER - Não dá para saber. É um processo aberto, eu acho que a principio ele não conclui, porque nem os interesses das elites dominantes que o elegeram ele atende plenamente.
 
O Bancário - O que é pior, com Bolsonaro ou sem Bolsonaro mas com essas forças que o sustentam?
SADER - Para a direita é melhor sem Bolsonaro. Ele foi um ótimo candidato, mas é um péssimo governante. Para o país, sem Bolsonaro, com certeza. Para a esquerda, quanto mais tempo ele ficar, mais ele vai desorganizar a possibilidade de a direita dirigir o país.
 
O BANCÁRIO - Até que ponto o escândalo da Lava-Jato pode contribuir para a resistência democrática?
SADER - O escândalo confirma tudo que a esquerda, a começar pelo Lula, sempre disse. Perguntamos para Lula se alguma coisa o escandalizou no que a Intercept está revelando e ele disse que não, que era tudo que ele imaginava.

O BANCÁRIO - Além da retomada da democracia, como recolocar o homem no centro da sociedade, hoje ocupada pelo deus mercado?
SADER - Terminar com o neoliberalismo, onde o que conta é o poder do dinheiro, não as pessoas, as necessidades do ser humano. O que é preciso fazer é superar o neoliberalismo e construir um regime solidário e humanista.