Entrevista

2 de julho de 1823. O dia em que o povo ganhou

Postado dia: 01/07/2009 - 09:57


Por Eliane Costa


Esta é melhor definição para a festa do 2 Julho, data em que o povo da Bahia vai às ruas festejar a independência do Brasil. Nesta entrevista ao jornal Vermelho Salvador, o historiador e professor Ubiratan Castro* conta um pouco da história da luta do povo baiano para se livrar do jugo português. Fala também dos heróis do povo e da importância da participação popular na guerra.
 
Eliane: Qual o significado do 2 de Julho?
Ubiratan Castro: O título mais feliz para o 2 de Julho foi criado pelo historiador Joel Rufino dos Santos: o dia em que o povo ganhou. Na história da Bahia e do Brasil, este foi o único momento em que a união e os esforços populares obtiveram uma grande vitória: a criação do Estado independente do Brasil. O 2 de Julho foi o resultado de uma ampla mobilização nacional, que uniu dos senhores de engenho aos escravos descendentes de africanos e todas as camadas sociais em torno de um projeto unificado de um Brasil independente, de um país economicamente autônomo e com a esperança de uma sociedade mais justa. Essa esperança é materializada no projeto da abolição da escravidão defendida pelas camadas populares, pelos republicanos e pelos escravos; projeto este que foi negado no dia 3 de julho de 1823. Com isso, o 2 de Julho inicia todo um ciclo de movimentos populares, como a Revolta dos Mata Marotos, os levantes populares contra a permanência no poder de elementos ligados à colonização portuguesa, os movimentos contra o monopólio do comércio exercido por comerciantes portugueses e pela nacionalização do comércio. Revoltas estas que chegaram até a revolução de 1830 e 1831, com a renúncia de D. Pedro I como imperador. 
 
Eliane: Qual foi a participação do governo central do Brasil?
UC: Desde a chegada de D. João VI em 1808, a capital do império português passou a ser o Rio de Janeiro. Em 1814, com a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, o país adquire o direito a ter um exército e outras instituições locais. Este reino do Brasil só se separa de Portugal em 7 de setembro de 1822, quando acontece a independência. Então, só se pode falar em governo do Brasil a partir deste dia. 
Na Bahia, o movimento pela independência começa um pouco antes, em 25 de junho de 1822, quando se organiza o governo revolucionário provisório na Vila de Nossa Senhora da Cachoeira, reunindo todas as vilas do Recôncavo baiano e do interior, propondo a organização da guerra pela libertação total do Brasil do jugo português. Esse movimento se opunha ao projeto da corte de Lisboa que queria a re-colonização do Brasil; o que significava a reversão de todos os avanços conquistados desde a chegada de D.João VI e o retorno à condição de subordinado a Portugal, impossibilitado decomercializar diretamente com outras nações e subjugada ao bombeamento dos recursos econômicos para a reconstrução de Portugal. O país tinha que financiar a revolução industrial de Portugal, a sua reconstrução após as guerras Napoleônicas e os saques das tropas francesas. O Brasil disse não a isto; e esse não sai da Bahia, com armas na mão, em Cachoeira, no dia 25 de julho de 1822.
 
 
Eliane: Esta resistência portuguesa à independência aconteceu também em outras capitanias?
UC: Não. Em nenhum outro estado houve uma resistência à independência parecida. Nas outras capitanias, o que prevaleceu foi a decisão do governo central no Rio de Janeiro, com Bonifácio de Andrada e Silva e o imperador Pedro I. Houve uma adesão administrativa formal ao grito da independência. Na Bahia, a situação foi diferente, porque a cidade estava ocupada por quase 10 mil homens das tropas portuguesas da Legião Constitucional, comandada pelo general Madeira de Melo, e a esquadra portuguesa comandada pelo Almirante João Félix. Estas tropas eram fiéis à proposta da re-colonização. Eram formadas por nacionalistas portugueses radicais, que defendiam a re-escravização, a re-colonização do Brasil. Então eles reagiram, fincaram pé em Salvador e expulsaram as tropas brasileiras, que se re-agruparam em Cachoeira e recôncavo, sitiaram Salvador com os portugueses dentro e travaram uma dura guerra para expulsa-los, o que aconteceu finalmente no dia 2 de julho. Por isso, é que a gente diz que a Independência do Brasil consolida-se na Bahia em 2 de julho de 1823. Porque se os portugueses fossem vitoriosos, eles teriam mantido a Bahia como colônia de Portugal e, pela posição geográfica do estado, impediriam a unificação de todo o território do Reino do Brasil. Com isso, fatalmente nós teríamos três países: um Nordeste, com capital em Recife, a Bahia colonial e o sul do país com sede no Rio de Janeiro. A vitória na Bahia assegura a unificação territorial do Brasil independente.
 
Eliane: Se o 2 de Julho foi tão importante para a independência do Brasil, por que isto não é reconhecido pelo resto do país?
UC: Porque o povo foi traído depois que venceram esta guerra. O 2 de Julho foi omitido por uma hegemonia que se estabeleceu logo em seguida pelo governo centralizado no Rio de Janeiro, que chamou a si todas as glórias da independência. Construiu o 7 de Setembro como data nacional e para isso teve que apagar o 2 de julho. E com advento da República em 1889, se construiu o 21 de abril como data símbolo da construção da República, uma data infinitamente menos importante que o 2 de Julho, com o Tiradentes como mártir nacional, enquanto aqui nós tivemos quatro mártires populares da Revolta dos Búzios, a chamada Conspiração Baiana em 1798. No 2 de Julho, foram centenas ou milhares de pessoas mortas lutando pela independência da Bahia, enquanto os inconfidentes jamais pegaram em armas ou fizeram nenhuma ação pela independência, apenas protestaram contra a cobrança de impostos. Então, o governo central construiu estas datas nacionais e apagaram tudo que eles consideram regional.
O objetivo do Governo e da bancada federal da Bahia é fazer com que o 2 de Julho seja reconhecido nacionalmente. Inclusive, é a deputada federal pelo PCdoB da Bahia, Alice Portugal, a autora do projeto, que tramita no Congresso, inserindo a data no calendário de comemorações nacionais.
 
Eliane: Quem são os heróis do 2 de Julho ?
UC: Os baianos e brasileiros, porque para vencer esta guerra houve um amplo recrutamento de soldados de todo o sertão da Bahia e de várias partes do Brasil. O pessoal largou sua roça, suas tropas de mula, os engenhos e alistou-se no Exército. Homens e mulheres. Vejam o caso de Maria Quitéria de Jesus, de Maria Filipa e da Joana Angélica e de todas as mulheres que ficaram nas roças cuidando da plantação para alimentar as tropas.
O que marcou bastante a guerra foi a grande frente popular pela independência do Brasil. Onde as mulheres entraram em combate, onde os trabalhadores rurais, os meeiros, posseiros e homens da roça aderiram ao Exército, onde os escravos das plantações e engenhos fugiam para se alistar, atendendo ao apelo do General Labatut, que lançou uma proclamação oferecendo a liberdade a todo negro que entrasse no exército libertador. Sem contar com a colaboração de outros estados. Para formar o exército de 11 mil homens e a Marinha de Guerra, que acabaram vencendo esta guerra, vieram contingentes de todas as capitanias do Brasil; Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Portanto, houve uma união nacional de voluntários do Brasil inteiro; gente de todas as cores e condições civis se uniu em torno do projeto de independência. Por isso é que a gente insiste que foi o dia em que o povo ganhou e isto ficou na memória do povo baiano.
 
Eliane: A negação dos heróis do 2 de Julho oriundos do povo seria uma forma de discriminação?
UC: No dia 3 de julho acontece a grande traição nacional. As tropas que entraram vitoriosas em Salvador no dia 2, que festejaram na cidade a libertação da Bahia, a criação de um Brasil independente, tinham uma pauta popular de reivindicações que foi negada pelas tropas do Batalhão do Imperador, fiéis ao governo do Pedro I e que impuseram a monarquia, a escravidão e a centralização do poder no Rio de Janeiro, num modelo de Estado unitário. Isto era contra as reivindicações de soberania regional e de federalismo que eram parte da pauta popular, que defendia também a abolição da escravidão, a proclamação da República e a divisão das terras com os agricultores. Então, para não cumprir os compromissos com o povo que venceu a guerra, eles tinham que afastar todo o protagonismo, negar a participação popular e só exaltar a nobreza, os proprietários de escravos. Durante muito tempo, só se celebrava a elite proprietária de escravos e de engenhos do Recôncavo, que organizou a luta armada, mas, jamais teriam vencido se não houvesse o alistamento massivo das várias classes sociais da Bahia. Então, omitir a presença popular é uma forma de negar-se a cumprir compromissos com a pauta de reivindicações. Por isso, o povo continuou se rebelando. Entre 1823 e 1838, aconteceu uma série de revoltas populares e escravas, inclusive a dos Malês em 1835, que era uma forma do povo cobrar o cumprimento dos compromissos da libertação do Brasil.
 

Eliane: Quando começou o desfile do 2 de Julho?
UC: A sobrevivência do 2 de Julho como festa popular é prova da importância da data. Durante muito tempo, não era feriado e o próprio povo organizava o cortejo festivo, quando ia às ruas cobrar a plenitude da conquista. Em 1824, o povo já estava nas ruas cobrando a pauta do 2 de Julho, quebrando os estabelecimentos comerciais dos portugueses que ficaram controlando o comércio local e impondo altos preços aos gêneros de primeira necessidade. Então, todo 2 de Julho, o Caboclo saia na frente e o povo ia atrás, quebrando todo armazém de português. Isso a tal ponto que  o Governo da Província da Bahia no século XIX resolveu amansar o Caboclo, que era símbolo de luta e representava o soldado brasileiro - o não europeu, negro e índio, mestiço, popular e nativo. Representava aquele que nasceu no Brasil. Para acalmar ou emascular o Caboclo, o governo resolveu casa-lo, fizeram o carro da Cabocla e a colocaram exatamente como uma índia que foi subserviente aos portugueses: Catarina Paraguaçu. Foi Catarina quem favoreceu a chegada de Tomé de Souza, que negociou com os parentes índios a não resistência à construção da cidade de Salvador como capital da Colônia. E, do ponto de vista simbólico, um herói casado não poderia promover desordem na cidade para não envergonhar a mulher.
 
Eliane: Como eram o desfile do 2 de Julho durante a Ditadura Militar?
UC: Todas as causas populares eram veiculadas no 2 de Julho. Durante a Ditadura Militar, a geração pós 1968 via na data o único espaço onde podia sair com suas faixas. Havia a participação dos sindicatos, movimentos populares que lutavam pela anistia, por eleições diretas e pela redemocratização do Brasil. No 2 de Julho, eles não reprimiam o desfile, que funcionava como uma pequena janela de liberdade. Por isso é que o 2 de Julho foi adotado pela esquerda no Brasil como um espaço de protesto e com um significado popular, independentemente dos governos. É um espaço em que o povo mostra seus anseios de liberdade e cobra pelo dia em que ele ganhou, mas não levou.
 
 
 
* Ubiratan Castro de Araújo
Ubiratan Castro de Araújo é doutor em história pela Université Paris IV-Sorbonne, mestre em história pela Université Paris X-Nanterre, licenciado em história pela Universidade Católica do Salvador e bacharel em direito pela Universidade Federal da Bahia. É professor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA e, atualmente, diretor geral da Fundação Pedro Calmon e presidente do Conselho para o Desenvolvimento das Comunidades Negras de Salvador. Publicou os livros “A Guerra da Bahia”e “Salvador era assim. Memórias da cidade”, além de diversos artigos sobre a história da Bahia.