Entrevista

Falta compromisso estratégico com o ensino superior público

Postado dia: 28/05/2018 - 09:14

*Por Rogaciano Medeiros e Rose Lima

Como sair da crise política e econômica que o Brasil se encontra?
João Salles
- Com opções que visem ao desenvolvimento social, que favoreçam o emprego, a educação e a saúde, em geral, e a qualidade de vida da classe trabalhadora. Certamente, isso ajudará a recompor o cenário, a conjuntura política e econômica do país. 

Há consenso na academia de que o impeachment de 2016 foi um golpe?
JS- Consenso não existe na academia. Há divergências, sim, posições e leituras diversas acerca do que foi esse processo. Certamente, há leituras mais jurídicas que dizem sim, enquanto outras advogam que não; o mesmo com as análises políticas, sendo minoritários nesse caso os que dizem que não houve golpe. Dando uma opinião sobre isso, eu diria que a palavra golpe talvez seja insuficiente para descrever o conjunto de ataques feitos nesse processo político como um todo. 

O Brasil vive um estado de exceção? 
JS - Temos manifestações diversas de um tratamento excepcional, mesmo ou sobretudo com aparência de legalidade, mas com teor de ameaça ao exercício da política e da vida pública. Manifestações restritivas que, sim, configuram um quadro político como nunca vivemos nos últimos tempos. 

A universidade corre risco com o governo que está ai? 
JS - A universidade pública está sendo ameaçada, sim, sobretudo por restrições orçamentárias. Vai precisar resistir a este governo e, provavelmente, ao próximo governo, a menos que prepondere o compromisso com a expansão do ensino superior e a verdadeira inclusão de quem tem acesso ao ensino superior. Ou seja, não estará ameaçada a universidade apenas no caso de que se firme como uma obrigação estratégica do Estado o financiamento público do ensino superior. Se tivermos um governo assim, teremos um governo progressista e democrático, que, certamente, permitirá que as universidades tenham um papel adequado à sua natureza e possam servir aos interesses da sociedade. 

Quais as implicações na UFBA, do ponto de vista orçamentário e de investimento?
JS - Nós temos a necessidade, por exemplo, de cerca R$ 70 milhões para concluir nossas obras paradas ou em andamento, e não temos tido uma liberação orçamentária dessa ordem. Do ponto de vista da manutenção, temos também uma necessidade de suplementação orçamentária, porque a UFBA cresceu, tem um contingente de estudantes e equipamentos hoje que precisa de mais recursos para manutenção, para assistência estudantil e, no caso de nossas instalações, de limpeza, segurança, para além do que o orçamento permite.  

É possível resgatar a democracia só pela via institucional? 
JS - Essa é uma questão mais ampla, que tem a ver com uma análise de conjuntura política e certamente de quais são as formas de transformação da sociedade. Se compreendermos a democracia de uma maneira mais simples, no modelo de democracia burguesa, a via institucional pode ser suficiente. Se, além disso, pensarmos que democracia envolve um aprofundamento mais radical dos direitos da classe trabalhadora, certamente uma mobilização mais significativa, mais ampla da classe trabalhadora, dos excluídos, pode ser necessária para a verdadeira transformação da sociedade.

Eleição de outubro corre risco?
JS - É uma avaliação difícil. Entretanto, surpreendentemente, talvez não corra risco, porque, afinal, mesmo os governantes mais retrógrados precisam de alguma forma de legitimação, até para continuarem, se for o caso, um processo de retrocesso no que se refere às conquistas e aos direitos de nosso povo.