Entrevista

Uma dose de nacionalismo

Postado dia: 22/08/2017 - 09:26

*Por Rogaciano Medeiros

Autor do projeto Novo Desenvolvimentismo, que aponta formas para o Brasil retomar o crescimento dentro de uma perspectiva de resgate do sentimento de nação, o economista Luiz Carlos Bresser Pereira defende uma boa dose de nacionalismo econômico para encarar o neoliberalismo. Ministro dos governos Sarney, FHC e Lula, ele diz que o desafio brasileiro hoje é saber se integrar à globalização de forma competitiva e soberana. Em entrevista exclusiva a O Bancário, Bresser Pereira condena a lógica meramente rentista do projeto neoliberal e afirma que o atual Congresso Nacional é um “grande ônus” à democracia brasileira.


O Bancário – O Brasil necessita de uma nova Constituinte?

Bresser Pereira – Acho que não. O problema do Brasil não está na Constituição.

O Bancário – Como tocar o projeto Novo Desenvolvimentismo com um Congresso tão conservador?

BP – Eu acho que nunca tivemos um Congresso tão ruim quanto este. Um sistema eleitoral que privilegia os ricos e os deputados que se vendem aos ricos para se elegerem. Um Congresso que tem sido um grande ônus para a democracia brasileira.

O Bancário - A reforma trabalhista, que corta direitos dos trabalhadores, é uma ameaça ao projeto Novo Desenvolvimentismo, que como o senhor mesmo falou, exige salários decentes e controle da inflação?

BP – A lógica do governo oportunista de Temer e a lógica do capitalismo financeiro rentista, das pessoas que vivem de lucros, juros, aluguéis e dividendos, não dos empresários.  A lógica deles, em relação ao Brasil, hoje, é muito simples. Há uma crise, um desajuste, e quem vai pagar esse ajuste serão só os trabalhadores. Eles próprios, os rentistas, não querem pagar nada. É uma postura muito injusta e ineficiente. As perspectivas do Brasil são muito sombrias.

O Bancário – O nacionalismo se associa logo ao fascismo, mas o senhor não acha que hoje uma dose de nacionalismo é fundamental para derrotar o neoliberalismo?

BP – O nacionalismo econômico é fundamental. O que é muito ruim, péssimo, é o nacionalismo étnico, que deu origem ao nazismo, ao fascismo, produziu genocídio em vários lugares. Agora, o nacionalismo econômico, a ideia de defesa de nação, de que o mundo é formado por estados nações, que competem entre si, que cada um tem de lutar por seus interesses, ao mesmo tempo em que precisam de um certo grau de colaboração em nível internacional, isso é muito importante.

O Bancário – Em 1995, no governo FHC, o senhor apresentou um projeto de reforma do Estado, sob o título Da administração pública burocrática à gerencial. O que foi possível executar? O que o Estado brasileiro necessita para ser competitivo?

BP – A reforma gerencial é, a meu ver, a segunda reforma que o Estado capitalista faz na administração pública. A primeira é quando passa do Estado patrimonialista para o Estado burocrático, de Max Weber, que os países ricos realizaram no Século XIX e o Brasil realizou nos anos 30, com Getúlio Vargas. A reforma gerencial nos países ricos começou nos anos 80 e no Brasil nos anos 90. É indispensável para tornar mais eficiente os serviços públicos, como educação, saúde, Previdência e serviço social, fundamentais para o povo e que precisam ser supridos de forma eficiente, a um custo relativamente baixo.

O Bancário – As elites nacionais, na imensa maioria, costumam confundir globalização com entreguismo. Essa teoria da dependência pode ameaçar o projeto Novo Desenvolvimentismo?

BP – A globalização é um desafio que o Brasil tem. A gente tem três possibilidades. Uma é se fechar e tentar voltar para a substituição de importações. Tem gente que defende essa tese. Acho ridícula. A outra é a tese que quase todo mundo defende, de se integrar subordinadamente, aceitando os conselhos, as recomendações, as pressões que os países ricos fazem sobre nós, de maneira passiva. A terceira possibilidade é se integrar à globalização competitivamente. É o Brasil decidir que vai ser excelente em certos setores, capaz de competir internacionalmente. Para isso é  preciso ter uma taxa de câmbio correta, uma taxa de juros correta, um equilíbrio no pacto econômico correto. É isso que temos de fazer, uma integração competitiva em nível internacional.