Entrevista

Revista baiana fez história no Estado Novo

Postado dia: 29/05/2009 - 16:10

Por Ney Sá
 
O potencial e o poder dos meios de comunicação são bem reconhecidos na sociedade de hoje. A cada capítulo revisitado na história, cresce inevitavelmente a percepção sobre a dimensão do decisivo papel que têm os veículos de imprensa no processo civilizatório. A entrevista que publicamos a seguir é um exemplo disso. Trata-se de um recorte sobre a experiência da Revista Seiva, uma iniciativa genuinamente baiana da primeira revista do Partido Comunista do Brasil (então PCB), sob a visão de seu principal editor, João da Costa Falcão, no final da década de 30, em pleno Estado Novo, sob a censura do poderoso DIP – Departamento de Imprensa e Propaganda.
 
 
Ney: Como surgiu a revista Seiva?
João Falcão: Para falar da revista precisamos lembrar o contexto histórico em que ela surgiu. Ao ingressar na Faculdade Livre de Direito, em 1938, eu ingressei no Partido Comunista do Brasil (PCB). Fui membro da célula desta faculdade. Não era ainda a Universidade Federal, era uma fundação organizada pelo prof. Bernardino de Souza, um advogado sergipano que também reergueu o Instituto Histórico e Geográfico da Bahia.
Entrei na faculdade numa reação ao Estado Novo. Eu participava da campanha do paraibano José Américo de Almeida à Presidência da República. O outro candidato era de São Paulo, não me lembro agora o nome, mas era apoiado pela elite paulista e mineira. O mesmo quadro de hoje com Serra e companhia. A velha política do café com leite.
Foi quando o governo deu o golpe, em novembro de 1937, antes da eleição, alegando o perigo comunista e denunciando o Plano Cohem.
 
Ney: O que era o Plano Cohem?
João Falcão: Era um documento falso que dizia que os comunistas iam tomar o poder e tinha uma relação de pessoas que eles iriam fuzilar. Tudo mentira. Esse plano foi preparado pelo Olípio Mourão (o mesmo que teve participação no início do golpe de 64), que era integralista e ficou encarregado de fazer um plano preventivo no caso dos comunistas tomarem o poder.
Era um plano preventivo de defesa da ação integralista. Esse documento foi parar na mão de Góes Monteiro, que era chefe do Estado Maior das Forças Armadas, que levou o plano ao general Eurico Gaspar Dutra (então ministro da Guerra), e os dois resolveram transformar o documento como se fosse dos comunistas. E os jornais publicaram assim. Gerou um pânico na sociedade.
Os comunistas apoiavam a candidatura do José Américo. Assim configuraram a candidatura como um perigo ao País. Aí deram o golpe e o Congresso apoiou. Decretaram o Estado de Emergência. O Congresso conferiu poderes ao presidente a fazer prisões sem justificativa. Começaram a prender os comunistas. Queriam prender o governador do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, que teve que fugir para o Uruguai. Instalaram assim o Estado Novo.
 
Ney: Qual era então a situação na Bahia?
João Falcão: Aqui na Bahia prenderam Orlando Gomes, vários intelectuais e sindicalistas. Eu que estava na campanha do José Américo, que havia sido lançada aqui na Bahia, numa sessão solene no Teatro Guarani, com apoio do governador Juracy Magalhães, fiquei inconformado. Eu tinha uns 19 anos na época e nenhuma experiência.
 
Ney: Como ficou o clima?
João Falcão: O golpe criou um medo geral. Muita gente fugiu e o pessoal que era da campanha às vezes nem se falava na rua quando se encontrava. Eu me revoltei e a porta que encontrei foi o Partido Comunista.
Conversando com outros estudantes, como o Diógenes Arruda Câmara, que era estudante de agronomia – e depois foi grande dirigente do partido -, ele me disse que nem todo mundo estava com medo, “tem um grupo aí que está resistindo”. Me levou para uma reunião do tal grupo, que já era reunião do partido, na casa de Armênio Guedes, na Rua Banco dos Ingleses, no Campo Grande.
 
Ney: Foi aí que se deu a fundação da Seiva?
João Falcão: Foi. Eu comecei a ler com muita gana a literatura russa, sobre a vida de Stalin, de Lenine E encontrei na biografia de Lenine ele sempre fundando revistas para ser um catalisador de idéias. Isso me impressionou muito e, então, propus a fundação da revista do partido aqui na Bahia. O Diógenes Arruda submeteu à direção do partido, que aprovou a idéia. Mas ele disse que tinha que ser pra já, ainda em dezembro de 38.
O partido nunca teve uma revista. Tinha a Classe Operária, que era um jornalzinho clandestino que circulava no Brasil todo. Mas quando foi em 37 a repressão piorou muito e o partido não podia nem fazer o jornal. Então, em seis meses, nós produzimos e lançamos a revista no prazo estipulado. Mas eu tinha colaboradores. A revista era legal.
 
Ney: A Seiva se apresenta como revista do partido?
João Falcão: Não, a revista não podia ser conhecida como de esquerda. Não tinha outro comunista na direção, só eu, que estava recém-chegado de Feira de Santana, não era conhecido da reação, da polícia nem dos intelectuais de direita.
O censor do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) ficou feliz em ver os jovens fazendo aquela revista e facilitou. Depois teve um susto, quando ele viu a revista pronta, com colaboração de Orlando Gomes, Afrânio Coutinho, Américo Albuquerque.
 
Euclides: E Luis Viana, que aparece no segundo número, era de esquerda?
João Falcão: Não, mas era democrata. Como eu disse, a revista não podia ser conhecida como de esquerda. Carlos Lacerda assinava como Marcos Pimenta. Acho que na época ele estava foragido em Itaparica. Eu tenho ligeira lembrança de ir ou mandar alguém buscar o artigo dele. Tinha também a participação de poetas como Sosígenes Costa, de Ilhéus, também um democrata. Tinha Alves Ribeiro, esse era daquela ala que Jorge amado fazia parte, uma ala literária. Luis Bastos era Leôncio Basbaum, diretor das Lojas Quatro e quatrocentos, que depois se transformou nas Lojas Brasileiras. Sodré Viana, esse era comunista mesmo, dirigente do Comitê Regional, mas disfarçado.
Participou também o Walter da Silveira (que hoje dá nome à sala de cinema), advogado trabalhista, que trabalhou no Sindicato dos Bancários posteriormente.
Desde aquela época a Revista Seiva já tinha pretensões internacionais, sul-americana. Já convidava escritores da América a colaborar e conseguiu posteriormente chegar ao Uruguai, Argentina e outros países. Tinha um envolvimento muito grande com a intelectualidade. Nunca houve no nosso país uma revista com uma mensagem como ela.
 
Ney: Como era a circulação da revista?
João Falcão: A tiragem era de aproximadamente 1.500 exemplares, que circulavam em todo o estado da Bahia. Tinha correspondentes em todos os estados e era distribuída por assinatura nacionalmente, com exemplares enviados para todas as bibliotecas. Era uma boa tiragem para a época. Não sei se muitos jornais tinham isso. E a revista foi auto-suficiente durante seus cinco anos de vida, porque eu tinha uma boa relação com o comércio e conseguia muita publicidade.
 
Ney: Onde era impressa?
João Falcão: Nessa fase, até 1939, era impressa na Tipografia Renascença, da família de Moema Gramacho. Era uma gráfica comum, mas eram simpatizantes do Partido Comunista. O velho Gramacho e os filhos Delô e Descartes. Alguns netos da família trabalharam posteriormente no Jornal da Bahia.
Depois dessa fase eu inventei de fundar uma gráfica, para a revista, material do partido e comercial também. Mas isso já foi em 1940.
 
Euclides: Essa foi a segunda fase da revista?
João Falcão: Não foi só uma interrupção, em 1939, por conta da questão da gráfica e de alguns fatores políticos. A segunda fase veio muitos anos depois, em 1950. Mas é importante dizer que na primeira edição após a gráfica própria, em 1940, nós demos o furo de anunciar ao Brasil que a Bahia tinha petróleo (o poço do Lobato), porque era proibido dizer isso. Os americanos não admitiam que o Brasil tivesse petróleo.
 
Ney: Quantos números foram editados?
João Falcão: Da fundação até julho de 1943, foram 18 números, é a primeira fase da revista. A revista já era conhecida no País todo, na Argentina e outros países da América do Sul. Os jornais já faziam referência e tudo.
Estava muito bem divulgada, quando surgiu uma surpresa. Uma entrevista com o general Manoel Rabelo, que era presidente e fundador da Sociedade Amigos da América e ministro do Tribunal Federal Militar. Ele era ligado aos Estados Unidos, mas era destemido, trabalhador e ajudou muito na declaração de guerra do Brasil ao Eixo. O DIP arrolhava tudo, mas ele como ministro podia dizer certas coisas.
Fomos fazer uma entrevista com ele sobre a situação da guerra. Ele, não sei porque, sentiu-se à vontade e falou muito mais do que nos seus discursos. Denunciou as sabotagens ao esforço de guerra. Disse, por exemplo, que o Ministério da Guerra convocava estudantes jovens, operários, universitários, para lavar latrina, dar banho em animais. Isso era sabido de todos, revoltava as famílias, mas ninguém dizia nada.
 
Ney: Como foi a repercussão?
João Falcão: Quando a revista saiu, as agências telegráficas transmitiram logo o conteúdo da entrevista. Foi a primeira vez, naquele período, que alguém dizia certas coisas abertamente. A imprensa do Rio e São Paulo divulgou. O ministro da Guerra, que era o Dutra, ficou alucinado e disse logo “prendam esses moleques, tirem a revista de circulação”. Pronto, nos fomos presos. Eu, meu irmão Wilson, e Jacob Gorender.
Fomos denunciados ao Tribunal de Segurança Nacional. O Comando da VI Região deu uma nota dizendo que nós éramos inimigos da pátria. Nos acusavam de ter publicado uma entrevista falsa.
Nossa prisão teve imediata repercussão no VI Congresso Nacional da UNE, que estava ocorrendo no Rio de Janeiro. Uma comissão levou ao presidente Getúlio Vargas uma carta do próprio general Rabelo confirmando a entrevista. O presidente mandou nos soltar. Mas a revista fechou ali.
 
 
Nota do editor:
A reportagem do general Manoel Rabelo tornou-se um documento histórico, sendo a primeira denúncia contra o boicote do Estado Novo ao esforço de guerra do Brasil e contra a ação da quinta-coluna no Ministério da Guerra. O general Eurico Gaspar dutra foi nomeado, logo depois, pelo presidente Vargas, para uma missão militar extraordinária nos Estados Unidos.
A revista voltou a circular em 1950 e vai até junho de 52, com cinco números, mas sem a participação de João Falcão.
Entrevista concedida por João da Costa Falcão, em 12 de fevereiro de 2009. Participou da entrevista o presidente do Sindicato dos Bancários, Euclides Fagundes Neves.