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A democracia tem pressa

Postado dia: 10/02/2020 - 00:00

Todos os movimentos na política brasileira hoje, tanto no campo governista como na oposição, seja de esquerda ou de centro, miram a corrida presidencial de 2022. Inclusive, a própria eleição municipal de outubro próximo é vista e tratada como importante fio condutor, um dos principais facilitadores para se chegar à presidência da República. Claro, muitos outros fatores interferem, mas ter influência na base é preponderante para a conquista do Estado federal.


E os problemas são vários, para todos os lados. Na base governista, nota-se uma disputa ferrenha para definir quem lidera a condução do projeto de poder da extrema direita. Bolsonaro, apesar de todas as barbeiragens e absurdos, leva boa vantagem sobre os outros dois postulantes, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, queridinho dos Estados Unidos, e o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), que ultimamente resolveu fazer cara feia para o capitão presidente.


A menos que haja uma reviravolta radical, o ultraliberalismo neofascista deve seguir com Bolsonaro porque dos três postulantes da extrema direita é, atualmente, o que possui maior apelo eleitoral, incrementa fielmente a agenda econômica de privatização e entreguismo, já é presidente e, na lógica, é menos risco tentar a reeleição do que querer eleger outro candidato. Isso em tese, evidentemente.


Na oposição, os problemas também são bastante complexos. A começar pelo fato de que ultimamente, segmentos das elites políticas e econômicas que promoveram o golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016 e ajudaram Bolsonaro a chegar ao poder, direta ou indiretamente, agora assustadas com as barbaridades do neofascismo começam a assumir, perante a opinião pública, uma atitude oposicionista.


Acontece que frações das forças progressistas e populares rejeitam radicalmente qualquer aliança com o que chamam de “golpistas arrependidos” e propõem uma resistência democrática de caráter essencialmente de esquerda. No entanto, há também quem defenda a tese de que para derrotar o neofascismo e reconquistar a democracia é indispensável uma frente ampla, incluindo inclusive os arrependidos.


A aliança de Ciro Gomes com ACM Neto no Nordeste para, como eles têm dito, enfrentar Bolsonaro e o PT nas eleições municipais de outubro próximo, se for bem sucedida pode desequilibrar a correlação de forças políticas e partidárias não apenas na região, mas ganhar força em nível nacional, com impacto na corrida presidencial. Inclusive, é com essa intenção que o presidente da Câmara Federal, Rodrigo Maia (DEM), tem defendido a ampliação do bloco de centro para todo o Brasil, sustentado majoritariamente pelo DEM, PSDB e PDT.


Com a vantagem de possuir o controle da máquina federal e ter influência sobre expressiva parcela da burocracia estatal, principalmente o sistema de justiça, Bols onaro começa a fazer uma verdadeira faxina. Só fica quem jogar no time com pegada forte, for bolsonarista puro sangue. Limpeza ideológica, bem ao estilo neofascista. As sujeiras do passado têm sido alvo de rigorosa e violenta assepsia. Uma aposta de risco, mas alta, pois se vingar garante um projeto de poder prolongado, com supremacia sobre as demais forças de direita e de extrema direita, além do enquadramento do chamado 3M (mercado, militares e mídia).


Do outro lado, a oposição cresce, no entanto cada vez mais se divide. As chamadas forças progressistas e populares continuam sem fechar posição sobre uma composição com o bloco do centro. Um dado complicador tem sido Ciro Gomes, hoje inimigo declarado do PT e de Lula e vice-versa. O PDT está rachado porque o presidente Carlos Roberto Lupi prefere manter a linha histórica do partido de compor com as esquerdas. Habilidoso e conciliador, o governador do Maranhão, Flávio Dino, tem conversado com todos os segmentos insatisfeitos com o governo Bolsonaro, a fim de fortalecer a resistência democrática.


Como se vê, o cenário é complexo, ainda indefinido e pode produzir muitas surpresas. As eleições municipais estão em cima e a corrida presidencial já começou há muito tempo. O ultraliberalismo neofascista tem buscado se depurar, a fim de assegurar maior coesão, está no poder e, logicamente, na dianteira.  Mas, é possível reverter a realidade. Só que para isso as oposições precisam decidir logo se seguem divididas ou vão se misturar – esquerdas e centro - com foco no resgate do Estado democrático de direito, pré-requisito indispensável à superação da crise política e a retomada do desenvolvimento sustentável. A democracia tem pressa.


* Rogaciano Medeiros é jornalista, integrante do Movimento Comunicação pela Democracia