Artigo

As baratas podem reagir 

Postado dia: 09/12/2019 - 00:00

A série britânica de ficção cientifica, Black Mirror, Terceira Temporada, no 5º episódio, Engenharia Reversa, nos leva a refletir sobre os dramas sociais e como acontece a formação de um pensamento que leva ao extermínio de pessoas e a convivência numa sociedade doente. A ficção futurista se confunde com a realidade atual.


O episódio retrata em determinado momento a necessidade de exterminar as baratas, para que a “sociedade continue existindo”, e afirma que não é possível que as pessoas ainda as vejam como humanos e ainda enfatiza que defensores de baratas não são dignos de viver.


Para que os soldados participem do genocídio sem transtorno, e sem sentimento de culpa, são feitos implantes cerebrais. Os alvos da matança são os seres humanos, mas para eles aparecem como baratas a serem eliminadas.


“Os caras vão morrer na rua igual a barata, pô, e tem que ser assim” declaração do presidente Jair Bolsonaro publicada em vários veículos de comunicação dia 06/08/2019, assim ele defendia a ampliação do excludente de ilicitude que significa na prática a licença para o policial matar sem receber punição ou até mesmo investigação pelo assassinato.


O número de civis mortos por policiais tem aumentado assustadoramente, segundo matéria publicada no portal G1 Rio de 25/11/19, foram 1546 pessoas assassinadas no Rio de Janeiro, pela polícia do início do ano até outubro de 2019, o maior número desde quando iniciou a série histórica.


Assim no Brasil se forma um pensamento de que “bandido bom é bandido morto” fortalecendo as milícias, os grupos paramilitares e parte da segurança pública, que encontram a justificativa para eliminar seres humanos.


Dessa forma, pobres, negros e jovens são assassinados diariamente como se fossem baratas sob o aplauso de parte da população sem conseguir enxergar que estamos indo em direção a barbárie.


Mas no filme as baratas (seres humanos) reagem, “estão ficando bem mais engenhosas do que pensávamos”, afirma um personagem, em função de uma lanterna que emitiu flashes no soldado Stripe, quando ele estava assassinando uma barata. Isso fez com que o implante cerebral dele deixasse de funcionar, aí ele começou a enxergar a realidade e a conclusão de que a ideia das baratas era tudo mentira.  As “baratas” podem reagir.


*Álvaro Gomes é diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia e presidente do IAPAZ