Artigo

Combate às Drogas ou a Droga do Sistema?

Postado dia: 13/11/2019 - 00:00

Vivemos numa sociedade onde o consumo de drogas é bastante elevado, seja das lícitas ou ilícitas. Entretanto, é importante observar que o consumo de psicotrópicos permitidos, a exemplo do álcool, é muito maior. A política de "combate as drogas" se mostrou ineficiente e prejudicial à sociedade, levando ao encarceramento em massa da população pobre e excluída do nosso país, vítima constante da violência.

Quando se fala em combate as drogas, não leva em consideração os aspectos sociais, as condições objetivas e subjetivas que levaram as pessoas a se tornarem consumidores e dependentes, sempre os usuários pobres são associados ao crime e a vários aspectos negativos. 

O 3º levantamento Nacional Sobre o Uso de Drogas, realizado pela Fundação Osvaldo Cruz -Fiocruz, em uma amostragem com 16.273 pessoas de 351 cidades no ano de 2014, mostra que mais da metade da população já consumiu álcool pelo menos uma vez ao ano e 30%, ou seja, 46 milhões de brasileiros, usaram nos 30 dias anteriores. Com relação a drogas ilícitas, 3,2% de brasileiros usaram nos 12 meses anteriores a pesquisa, representando 4,9 milhões de pessoas.

O resultado é que sob o argumento de combate as drogas temos como uma das mais graves consequências o encarceramento, que cresceu assustadoramente, passando de cerca de 90 mil, em 1990, para mais de 800 mil, em 2019, atingindo principalmente a população mais carente.

A Defensoria Pública da Bahia fez um levantamento de todas as audiências de custódia realizadas em Salvador de 2015 a 2018 e constatou que 37,3% dos 17.793 presos em flagrante têm relação com uso ou tráfico drogas e 44,0% por crimes contra o patrimônio, 98,8% eram negros e pardos, e 98,7% ganhavam até dois salários mínimos.

Na realidade, o que observamos é um sistema injusto e perverso, de alta concentração de renda e desigualdade social, onde a população pobre é alvo das elites, seja através do desemprego, da perseguição, da falta de oportunidade e de condições mínimas de sobrevivência com dignidade, seja através do encarceramento em massa e dos assassinatos.

Para as elites que permanecem incólumes, o direito do uso de substâncias psicoativas lícitas e ilícitas, afinal as drogas também propiciam prazer, relaxamento e sensações agradáveis.

*Álvaro Gomes- Diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia e presidente do IAPAZ