Artigo

Desarranjo neofascista

Postado dia: 21/10/2019 - 00:00

Rogaciano Medeiros *


Sem dúvida nenhuma, a incapacidade do presidente, o despreparo para o cargo e a formação de um ministério com gente inexperiente e desqualificada - a grande maioria -, agravam, consideravelmente, o clima de disputa, ruptura, tensão, inoperância e ineficiência no governo e em todo entorno de Bolsonaro. É uma “balbúrdia” só.


Mas, é importante levar em consideração que todo esse desarranjo institucional, político e econômico que tanto tem debilitado o Brasil ao longo da história, marcada por colonialismo, escravidão, latifúndio e autoritarismo, e que teve uma forte recaída em 2016, com o golpe jurídico-parlamentar-midiático, reflete também a incapacidade do neofascismo de se fazer hegemônico.


Nenhum regime, por mais poderoso que seja, se mantém só com a força bruta, com a espada. O respaldo popular é indispensável. Garante a sustentação, dá legitimidade ao sistema. Todas as ditaduras, tanto as tradicionais, amparadas nos quartéis e fuzis, ou as contemporâneas, ancoradas nos tribunais e togas, necessitam de apoio do povo, bem ou mal, mais ou menos.


Bolsonaro se mantém ainda no poder, apesar de todas as barbaridades cometidas, em nível nacional e internacional, basicamente por dois motivos. Primeiro pelo compromisso assumido com a agenda ultraliberal e o medo das elites que o elegeram em gerar mudanças “indesejáveis” na correlação de forças políticas diante de uma eventual troca na presidência da República. Segundo porque ele ainda preserva um percentual de mais de 25% na preferência da população. É uma proteção popular relevante, embora se revele em queda acelerada.


A tendência é a rejeição ao presidente e ao governo aumentar sempre mais, pois o ultraliberalismo se baseia no corte de direitos, inclusive trabalhistas, combinado com a extinção de políticas públicas. Isso em um quadro de crise econômica aguda, com falta de investimentos públicos e privados, muita falência, desemprego altíssimo, queda brusca no poder de compra dos salários e criminalidade crescente. Combinação explosiva que tem provocado conflitos radicalizados, com mortes, não apenas em boa parte da América Latina, mas em muitos outros países mundo a fora.


Muito rapidamente o desencanto com Bolsonaro está se transformando em indignação. Caminho sem volta, pois o povo está excluído do projeto ultraliberal, portanto mais cedo ou mais tarde vai se rebelar. O êxito na transformação da revolta em ação política organizada vai depender muito da competência da resistência democrática e a libertação de Lula, que deve acontecer ainda este ano, será um reforço considerável. Mudará, e muito, o cenário político.


A conjuntura permite arriscar dizer que, mesmo com o pacote anti-crime de Moro, com a licença para a polícia matar, com a criminalização dos movimentos sociais e o endurecimento do regime, o neofascismo, que vai além de Bolsonaro, não  conseguirá conter a mobilização popular, a luta por democracia social, devido um detalhe marcante na história da espécie humana: a busca incessante por liberdade e justiça sempre vence a tirania, o ódio, a intolerância, a usura. Inexoravelmente. É como canta Chico Buarque: “Apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. E será. Luz sobre as trevas. 


* Rogaciano Medeiros é jornalista e membro do Movimento Comunicação pela Democracia