Artigo

Santa Dulce para além da canonização

Postado dia: 15/10/2019 - 00:00

Ney Sá*


A canonização de Irmã Dulce, referencial simbólico de grande importância para a sociedade, em especial para os setores eclesiásticos, pode servir também para uma reflexão social para além do “religare”.


Numa sociedade predominantemente materialista, aquilo que foge da curva padrão, torna-se alvo de atenção. Senão para confirmar a regra, talvez para se apresentar como mais um “produto” vendável, de consumo promissor. 


Não deixa de ser paradoxal que a obra social e humana de uma vida tenha que ser retirada do plano das realizações possíveis no nível material e precise da canonização, ou seja, tenha que ser elevada a uma condição de santificação – acima da mortalidade comum -, quando essa deveria ser a norma de conduta coletiva.


Mas o fato é que as pessoas precisam de referenciais inspiradores, que possam aplacar o sofrimento da jornada determinista, de vidas moldadas por valores histórica e culturalmente impostos pelo sistema social dominante, com seu viés capitalista, moralista, que dita as regras àqueles que se pretendem “cidadãos de bem”.


A freira, a santa, o guru, a liderança carismática, espiritual, religiosa, política... não importa que nome se dê, é uma necessidade que permite o vislumbre de outra possibilidade de vida, com menos sofrimento, desilusões, frustrações, enganos.


É muito claro que o padrão materialista a que chegamos não dá conta da dimensão humana mais profunda, que sonha com a utopia de uma sociedade menos focada no consumismo e no individualismo, mais justa, equilibrada e plural.


A visão e ação de pessoas como Irmã Dulce – que compartilha bens e recursos, visando  equilíbrio e paz sociais -, mesmo que constituam um grande projeto, como é o caso, ainda são pontuais e enfrentam limites em seu poder de transformação estrutural.


É preciso que a visão sistêmica cresça cada vez mais nas pessoas. É nesse ponto que a contribuição desses projetos pode efetivamente fazer a diferença, porque a partir do exemplo, da sua concretude, se tornam fontes de inspiração capazes de colocar em movimento a subjetividade latente da coletividade e, apesar de todos os paradoxos, podem construir pontes que nos aproximem da utopia desejada.


Com seu exemplo aparentemente frágil, mas de grande força realizadora, extremamente focada em objetivos coletivos, talvez a maior lição a ser aprendida com Irmã Dulce seja mesmo a de que é preciso superar as crenças limitantes que mantêm as pessoas imobilizadas, para romper um modelo socioeconômico anacrônico, que só permanece de pé por imposição das elites, insistentes em perpetuar seus privilégios.


*Ney Sá é jornalista e diretor do Sinjorba