Artigo

América Latina e a tragédia ultraliberal

Postado dia: 14/10/2019 - 00:00

Rogaciano Medeiros *


A situação política e econômica na América Latina tem degringolado muito rapidamente, de forma preocupante, pois atinge influentes países do subcontinente. Na última semana, por exemplo, as crises no Equador e no Peru se agudizaram ao ponto de não apenas elevarem a tensão, mas, acima de tudo, aumentarem a instabilidade na região. Perigosamente.


No Equador, onde o presidente Lenin Moreno desencadeou uma sangrenta repressão aos movimentos sociais, o governo está usando atiradores de elite para matar manifestantes. Os protestos derrubaram o aumento dos combustíveis. É clima de guerra. No Peru, o presidente Martín Vizcarra, com o apoio dos militares, fechou o Congresso, como tanto sonham os bolsonaristas xiitas no Brasil, e o Parlamento, apoiado pelo Judiciário, o afastou do cargo. Conflito institucional que, pela tradição peruana, tem tudo para acabar em ditadura.


A Colômbia também enfrenta uma realidade explosiva. O governo é acusado de recorrer a grupos paramilitares para eliminar a oposição, principalmente lideranças da antiga FARC. Há problemas gravíssimos na Argentina, no Chile, na Bolívia, em muitos outros países da América do Sul e Central. No Brasil, o neofascismo, que vai além de Bolsonaro, assumiu o poder e aos poucos, com a cumplicidade de setores das elites que se dizem liberais e democratas, tem endurecido o regime cada vez mais, política e economicamente.


Evidentemente, cada país tem especificidades, mas o que se pode notar, em todos, é a unidade das elites latino-americanas em torno da pauta econômica ultraliberal. Para incrementá-la, os governos necessitam promover cortes drásticos de direitos trabalhistas, civis e humanos, acabar com a rede de assistência social, por isso mesmo precisam restringir as liberdades e reprimir duramente as manifestações de protesto e contestação. O desemprego, a pobreza e a fome se alastram em ritmo acelerado e as grandes massas despossuídas e desesperadas só têm duas saídas: ou lutam ou morrem à míngua. Daí o aumento crescente da violência política.


A submissão incondicional das elites latino-americanas aos interesses das metrópoles, principalmente dos Estados Unidos, mas também da Europa, deformação que vem do passado colonial, deixa claro que os trabalhadores, o povo, estão por conta própria. Acabou a ilusão de alianças “por cima”. Agora só existem as bases. Raríssimas frações das classes dirigentes assumirão a defesa da soberania nacional, da independência, da autodeterminação, da democracia social, pois estão mais preocupadas em, mesmo às custas de graves crimes de lesa-pátria, ampliar os lucros e privilégios perante a nova ordem do capitalismo financeiro. Foi sempre assim. Não há conciliação. Dane-se o povo.


As forças progressistas, populares e de esquerda têm de caminhar com as próprias pernas, se reinventarem, descobrirem outros meios de organização, mobilização e luta. O ultraliberalismo desumaniza e violenta bem mais do que o neoliberalismo. Derrotá-lo requer novos parâmetros, novas ações, novos conceitos de resistência. Descobri-los, no fazer cotidiano, é a principal tarefa hoje de homens e mulheres que sonham com liberdade, direitos, soberania e democracia. É possível, sim, reescrever outra história para a América Latina e para a humanidade, na qual o povo e os trabalhadores sejam os protagonistas. Podes crer.


* Rogaciano Medeiros é jornalista, integrante do Movimento Comunicação pela Democracia