Artigo

É possível uma outra democracia

Postado dia: 07/10/2019 - 00:00

Rogaciano Medeiros *


A cada dia, no mundo todo, o que mais se ouve falar e vê na mídia são notícias sobre guerras e conflitos nos mais diversos países, motivados por questões econômicas, políticas, raciais e religiosas. A violência explode em nível global, assusta a humanidade e põe em risco, seriamente, o próprio processo civilizatório e a afirmação dos valores humanísticos. O momento é tenebroso.


As graves crises que abalam importantes países latino-americanos como Brasil, Venezuela, Equador, Peru e Argentina, principalmente, empurram o subcontinente para uma situação altamente delicada e explosiva. Nos EUA, centro do capitalismo, a extrema direita promete reação armada no caso de o Congresso aprovar o impeachment de Trump, por considerar um golpe de Estado. Europa, Ásia e África também enfrentam guerras, muita violência e sérias dificuldades.


A onda descontrolada das tais fake news, que prevalecem cada vez mais no insondável universo virtual, contaminando a realidade, ajuda, nocivamente, a exacerbar o individualismo e a relativização, abrindo espaço para devaneios como as afirmações de que a terra é plana, vacina faz mal, o aquecimento global não existe, a escravidão é inerente à espécie humana entre outras barbaridades ao estilo Olavo-Bolsarista.


Paralelo a tanta amargura, acrescentam-se, como tem ocorrido em quase todo Ocidente, com raras exceções, as restrições das liberdades, os cortes de direitos humanos, civis e trabalhistas, assim como as preocupantes extinções de políticas públicas capazes de, pelo menos, aliviar as dores das desigualdades. Combinações perigosíssimas, cujas conseqüências são imprevisíveis.


Mas, será que toda essa conjuntura tão cruel e insana pode ser explicada pelo simples fato de o ser humano estar se tornando cada vez mais perverso e degenerado? Evidentemente que não. O problema não é biológico, da espécie, mas sim político, do sistema, do modo de produção, da forma de organização econômica, política e social.


A nova dinâmica de reprodução do capital, chamada de ultraliberalismo, centrada no absolutismo do mercado financeiro e em um Estado sem o mínimo caráter social, amparado no normativismo policialesco que autoriza total repressão contra os rebelados, ameaça jogar a humanidade em um retrocesso histórico sem precedente. Atirá-la de volta às trevas da época anterior ao Renascimento, que antecedeu o Iluminismo. Realmente, é de meter medo.


O ocaso da economia planificada socialista, por mais problemática que fosse, tem sido ruim para a humanidade porque consolidou um mundo unipolar no que se refere ao modo de produção. Em nível mundial, o maior movimento, hoje, de oposição ao capitalismo e que ousa enfrentar o império, o Islamismo, não se dá no plano infra-estrutural, quer dizer, econômico, mas sim no superestrutural, ou seja, da cultura. A economia de mercado se impõe como se fosse inexorável, tão natural como a vida. E não é, claro. Existem caminhos alternativos.


O que está evidente é a desidratação da democracia liberal, incapaz de responder aos grandes problemas da humanidade. Faz lembrar a crise entreguerras da primeira metade do século passado, que produziu monstruosidades como o fascismo e o nazismo, com o detalhe de que naquela época prevalecia o capitalismo industrial, bem menos excludente. Hoje, com a supremacia do capitalismo financeiro, do rentismo sem nenhuma responsabilidade social, os efeitos colaterais do ultraliberalismo podem gerar monstros bem piores.


O mundo e a humanidade se deparam diante de um dilema vital. Se não houver a construção de novas formas de organização econômica, política e social, que recoloquem o ser humano como prioridade e privilegie a “gentidade”, como dizia Paulo Freire, a usura pelo lucro desmedido certamente agravará, consideravelmente, as ameaças ao planeta e à espécie. Inclusive, é dentro desse viés que acontece, até o dia 27 próximo, o Sínodo dos Bispos da Igreja Católica, em Roma, e cujo tema central é a Amazônia. Uma outra democracia é possível, sim.


* Rogaciano Medeiros é jornalista