Artigo

Luz sobre a farsa

Postado dia: 29/08/2019 - 00:00

Rogaciano Medeiros *


Conforme os sábios, tudo que é feito secretamente na escuridão da noite, será sempre revelado à luz do dia. Mais cedo ou mais tarde, a realidade dos fatos se impõe. Pensamento, inclusive, que dá base conceitual àquela célebre frase dita por grandes libertadores e estadistas vítimas da tirania e do despotismo: “A história me absolverá”.


No Brasil, onde o mais longo período de democracia da história nacional, de 31 anos, foi interrompido com o golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016, aos poucos, com muito esforço e, geralmente, freqüentes decepções, a resistência democrática tem conseguido, às vezes, segurar a onda neofascista que, ultimamente, tanto tem assombrado a nação. São vitórias significativas nos campos político e institucional.  Servem para frear o ímpeto autoritário do regime.


Politicamente, as revelações do The Intercept representam o maior revés já ocorrido até agora na narrativa golpista, pois desmascaram as farsas do impeachment sem crime de responsabilidade e a prisão arbitrária do líder de todas as pesquisas da corrida presidencial do ano passado. Expõem as indecentes manobras articuladas pelo sistema de justiça e a mídia, para demonizar as forças progressistas e favorecer as candidaturas de direita e extrema direita.


O The Intercept tem ajudado a recontar a recente história brasileira, pois desnuda o grande conluio das elites, inclusive aquelas ditas liberais, o que possibilitou a vitória de Bolsonaro. Alguns segmentos, agora assustados com tanta estupidez e barbaridades, dão uma de madalena arrependida. Beleza, sem sectarismo, são bem vindos à frente democrática, mas sem esquecer que contribuíram para a tragédia neofascita.


No plano institucional, onde ultimamente as forças progressistas têm sido literalmente fulminadas e a Constituição violada, há de se registrar dois momentos especiais. A aprovação da lei de abuso do poder, ferramenta fundamental para conter o avanço do Estado policial, indispensável ao neofascismo, e agora a decisão da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal, que anulou a sentença condenatória do então juiz Sérgio Moro contra o ex-presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine. É a primeira condenação da Lava Jato anulada pelo STF.


No caso da lei contra o abuso de autoridade, o presidente já disse que vai vetar vários artigos, desfigurando-a totalmente. Aí cabe ao Congresso se respeitar, limpar um pouco a sujeira que amarga perante a opinião pública e derrubar os vetos. No entanto, a decisão inédita do STF, de anular a condenação do ex-presidente do BB, abre uma perspectiva institucional muito saudável, de respeito ao ordenamento jurídico, tão violentado nos últimos tempos, templos, palácios e tribunais.


Mais do que a libertação, a decisão do Supremo sugere a imediata anulação da condenação de Lula. Afinal, embora a versão oficial esconda, com a cumplicidade da mídia, não se pode esquecer que o ex-presidente foi condenado por “fato indeterminado”, como consta na sentença, com base não em provas materiais, mas no que eles próprios chamaram de “conjunto indiciário”. Uma imoralidade, um conchavo jurídico-político com evidentes interesses eleitoreiros, endossado pelas elites políticas, econômicas e os militares.


Sem qualquer exaltação ao lulismo, não se pode imaginar uma reconciliação nacional – indiscutivelmente o país está perigosamente dividido –, nova repactuação política ou mesmo a superação das crises política e econômica, sem a devolução dos direitos constitucionais do ex-presidente. Seria manter na marginalidade, como acontece atualmente, uma expressiva parcela da sociedade brasileira. A democracia pressupõe o respeito à vontade popular.


Como se vê, o escândalo da Lava Jato é o maior fato político do período pós-golpe, pois revela para o Brasil e para o mundo as entranhas do drama neofascista brasileiro. Luz sobre as trevas. Os sábios têm razão. A história não perdoa. É implacável. Inexoravelmente. Ainda bem.


* Rogaciano Medeiros é jornalista, integrante do Movimento Comunicação pela Democracia