Artigo

A banalização do extermínio de pobres

Postado dia: 09/07/2019 - 00:00

Álvaro Gomes*

O psicanalista Cristhophe Dejours,  no seu livro A banalização da injustiça social, relata com muita propriedade a exploração dos trabalhadores na França,  fruto da ofensiva do capital. Ressalta que a banalização do mal pelo trabalho não é novo nem extraordinário, que a novidade não está na iniquidade, na injustiça e no sofrimento imposto ao outro através de relações de dominação, mas, sim, no fato de que “tal sistema possa passar por razoável e justificado; que seja dado como realista e racional; que seja aceito e mesmo aprovado pela maioria dos cidadãos”.

Aqui eu quero me referir  além da violência no trabalho, similar ou até mais grave que a dos trabalhadores franceses, a um verdadeiro extermínio da população pobre, através de assassinatos diários que têm se agravado e as medidas atuais do governo federal vêm no sentido do recrudescimento da situação. O porte de armas, a posse de armas, se concretizados, só servirão para aumentar ainda mais as mortes da população carente do nosso país.

Segundo o Atlas da violência de 2018, entre 1980 a 2016 foram 910 mil pessoas mortas por armas de fogo. Número crescente de 1980 até  2003, quando estabilizou até 2016 em função do estatuto do desarmamento que foi sancionado em 2003. Só em 2016 foram assassinados 33.590 jovens entre 15 e 29 anos. Um verdadeiro extermínio  da juventude e de pobres. Propostas para combater essa violência existem, basta estabelecer políticas públicas tendo como base a justiça social. Infelizmente, no momento o que observamos é exatamente o contrário.

Retorno ao psicanalista Dejours para dizer que não é nenhuma novidade, como diria o escritor Jessé Souza, o ódio das elites ao pobre, a exploração, a violência contra a população carente; o assustador é que parte considerável da sociedade defenda e até apoie os assassinatos em massa e os crimes simbólicos, como a morte de lideranças, a exemplo de Marielle, e de moradores de rua,  índios,  trabalhadores sem-terra, população LGBTQ+, entre outros, como se essas  vítimas fossem cidadãos do mal sendo destruídas pela população do bem.

Para enfrentar esta realidade o desafio não é pequeno. A paz com justiça social é a bandeira que todos devem abraçar para construirmos uma sociedade onde todos possam viver com dignidade.

*Álvaro Gomes é diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia e presidente do IAPAZ