Artigo

Tomara que vá

Postado dia: 10/06/2019 - 00:00

A série de reportagens do The Intercept, site norte-americano com grande atuação no Brasil, sobre as promíscuas relações entre o ex-juiz Sérgio Moro e o procurador federal Deltan Dallagnol, nas quais as funções de acusador e julgador se misturam, em uma conduta ilegal e antiética, desmascara em nível internacional a fraude na prisão de Lula e agrava ainda mais a séria crise política e econômica.

Se a situação já não era boa, do ponto de vista institucional e político, agora tende a pegar fogo. A PGR(Procuradoria Geral da República), o STF (Supremo Tribunal Federal), o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e o Congresso Nacional têm o dever de tomarem providência. Do contrário, além de se tornarem cúmplices do arbítrio, estarão desmontando o mínimo do que resta de ordenamento legal. Para usar uma expressão básica, jogarão na lata do lixo a Constituição. Literalmente.  

As denúncias são gravíssimas e acontecem em um quadro delicado da vida nacional. Aprofundam-se as cisões entre as forças de extrema direita que elegeram e ainda dão sustentação a Bolsonaro. A popularidade do presidente está em queda livre, com o governo imobilizado e rejeitado cada vez mais. A economia em recessão, o desemprego em ritmo incontrolável e as manifestações populares começam a ganhar milhões de mentes e corações por todo o Brasil.

O escândalo, de alcance mundial, explode a Lava Jato e expõe as vísceras fétidas de uma operação antinacional e antidemocrática. O complexo político, militar e econômico que detém o poder hoje no Brasil vai fazer de tudo para tentar emprestar um verniz de legalidade aos abusos cometidos por Moro e Dallagnol. O caldeirão verde e amarelo ferve, perigosamente.

Tudo isso às vésperas de uma greve geral marcada para sexta-feira, cujo resultado, inevitavelmente, influenciará, e muito, nos desdobramentos do escândalo, um dos mais graves da história recente da República brasileira, quem sabe o maior, a depender do que ainda há para ser revelado. Se a pressão popular for grande e intensa, tem tudo para colocar as instituições no paredão, obrigá-las a tomar uma atitude e, a partir daí, iniciar um processo que retire o país do regime de exceção em que se encontra. Sem ilusão, não ao ponto de derrotar a agenda neoliberal, claro, mas pelo menos neutralizar o neofascismo, tarefa maior, hoje, da resistência democrática.

Mas, se política e institucionalmente a ação das forças progressistas fracassar, ou não for forte o suficiente, aí as coloniais, escravagistas e violentas oligarquias nativas, orientadas como sempre pelos interesses das grandes corporações transnacionais, aquelas mesmas da música “a patrão mandou servir whisky  na feijoada, everybody macacada”, se sentirão à vontade para endurecer ainda mais o regime. Menos liberdades, menos direitos. O escândalo revelado no domingo pelo The Intercept coloca o Brasil no dilema: ou vai ou racha. Tomara que vá. Quer dizer, que volte ao Estado democrático de direito.

*Rogaciano Medeiros é jornalista, integrante do Movimento Comunicação pela Democracia