Artigo

A história faz justiça

Postado dia: 04/04/2019 - 00:00

Rogaciano Medeiros *

Os fatos só se tornam história depois de certo tempo, após entrarem na dimensão do que é chamado de tempo histórico. Quando, em 1964, as elites resolveram recorrer à velha tradição brasileira e interromperam 18 anos de democracia, iniciados em 1946, chamavam o movimento de “revolução” e os mais radicais até de “gloriosa”, por ter “salvado o Brasil do comunismo”. E quem dissesse o contrário estava frito. Literalmente. Foram 21 anos de ditadura civil militar, encerrada em 1985.

Naquela época, auge da guerra fria e quando os Estados Unidos impuseram o que ficou chamado de militarização do cone Sul - raros países do subcontinente latino-americanos não amargaram ditaduras - as democracias eram assassinadas com botas, fuzis e tanques. Era execução sumária, com tiro na nuca do Estado democrático de direito, bem ao estilo dos esquadrões da morte e das milícias de hoje que tanto serviram e servem à extrema direita.

Mas, os tempos mudaram. Os laboratórios do Departamento de Estado norte-americano e da CIA, especializados em golpes de Estado, os quais o ex-juiz e atual ministro da Justiça, Sérgio Moro, é acusado de conhecer muito bem, inventaram novos modos operantes. Hoje, ao invés das armas e dos quartéis, o capitalismo financeiro utiliza os tribunais e as togas. Agora, a moda golpista incorporou o que se chama de lawfare, em uma interpretação mais rigorosa, guerra das leis.

A prática consiste no uso dos equipamentos e dispositivos legais, na manipulação das regras, inclusive a Constituição, para destruir e desmoralizar politicamente lideranças populares, inimigos do capital e do império. Claro, com o apoio maciço da mídia, para legitimar a narrativa que dá sustentação ao golpe de Estado. Um exemplo vivo é o caso de Lula, condenado sem provas em julgamento sumário. Com a lawfare, a morte da democracia se dá de forma lenta e gradual, com recorrentes decisões judiciais que violam direitos e garantias individuais, além de restringirem as liberdades.

Mas, seja com fuzil ou toga, queira ou não Bolsonaro e os estúpidos que o apóiam, a revolução mentirosa de 1º de abril de 1964 é carimbada internacionalmente como golpe militar. Assim como já tem sido e será, mundialmente, classificado o impeachment sem crime de responsabilidade de 2016, que pôs fim a 31 anos de vida democrática, a mais longa da história brasileira. Um golpe jurídico-parlamentar-midiático que empurrou o Brasil para a extrema direita. Nada melhor do que a história para fazer justiça.

* Rogaciano Medeiros é jornalista e integrante do movimento Comunicação pela Democracia