Artigo

A sociedade está gravemente doente

Postado dia: 11/03/2019 - 00:00

*Álvaro Gomes

Em fevereiro de 2017, João Victor de Souza Carvalho, 13 anos, morreu após pedir dinheiro e comida em uma lanchonete da Rede Habib's, na zona norte de São Paulo. Testemunhas e vídeos comprovam que o adolescente foi espancado. Recentemente, morreu o neto do ex-presidente Lula, de apenas 7 anos. As duas mortes repercutiram e tiveram comentários assustadores.

No caso de João Vitor, os absurdos foram desde de "Menos uma sementinha do mal no mundo" à "De duas uma, ou ele viraria bandido ou afeminado com essa toca rosa. Acho que foi melhor assim". Ou ainda "Nossa ainda bem que morreu, já pensou quantas pessoas esse delinquente poderia matar no futuro". As frases arrepiantes não param por aí, como "com esse capuzinho cor de rosa ainda ia fazer mais estripulias gays por ai" e "Menos um cracudo nas ruas enchendo o saco da população, mais um cracudo para os braços do capeta".

No caso do neto de Lula não foi diferente. Uma pessoa que se diz blogueira disse: "pelo menos uma notícia boa". Ao ser questionada por uma internauta, reafirmou: "um filho da puta a menos". A internauta volta a questionar: "acho que você não entendeu. Quem morreu foi o neto, uma criança de 7 anos" e a blogueira responde mais uma vez: "entendi sim, pensa, iria crescer com exemplo do avô, um filho da puta a menos para roubar o país".

A crueldade dos comentários mostra uma sociedade gravemente doente. O sentimento de ódio, a defesa de extermínio de pessoas, o agravamento das desigualdades sociais, está nos levando para o abismo. Um retrocesso inimaginável para a civilização.

Nos faz lembrar a teoria da Eugênia, que estabelece a superioridade de segmentos da raça humana sobre outros, hoje expresso nas frases como "cidadãos de bem" em contraposição aos "bandidos". Para o historiador e professor da Unicamp, Leandro Karnal, os fariseus estão apontando "as pessoas do bem", estão "apontando o caminho do bem" e que "em nome do bem cometem crimes pavorosos".

No passado tivemos o avanço do fascismo em esfera mundial e hoje essas ideias estão incrustadas no atual governo federal e em parte da sociedade. Urge uma reação popular para buscar construir uma sociedade com paz e justiça social e assim evitar um retrocesso humanitário com consequências drásticas para toda a população.

*Álvaro Gomes é diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia e presidente do IAPAZ