Artigo

Democracia tutelada

Postado dia: 04/02/2019 - 00:00

A intromissão absurda do Judiciário em questão regimental do Legislativo, ao ponto de o STF (Supremo Tribunal Federal) determinar votação fechada na eleição para a presidência do Senado, depois de a própria Casa ter decidido por voto aberto, reafirma a disenteria institucional que tomou conta do Brasil depois do golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016.

Há mais de 2 anos o país vive sob Estado de exceção, com seguidas e graves violações constitucionais promovidas por personalidades e poderes influentes da República, inclusive aqueles que deveriam zelar e proteger a Constituição. A excepcionalidade virou regra, principalmente quando se trata de demonizar, derrotar e destruir os inimigos do rei.

Um período de excepcionalidades prolongado demais e seriamente preocupante, pois revela a consolidação de um regime autoritário que caminha para uma ditadura.  A diferença, e isso pode estar iludindo grande parte da sociedade, é que ao contrário do passado, em vez das botas, tanques e fuzis, agora as elites utilizam os tribunais, as togas e a mídia. Ameniza, dá uma falsa sensação de normalidade, de que as instituições estão funcionando e a democracia exercida. Ilusão, pois na real a lei está em movimento para viabilizar o abuso de poder, assegurar privilégios e afirmar hegemonia.

A ruptura decorrente do impeachment sem crime de responsabilidade abriu espaço para todo tipo de aventura. Sem legitimidade e comprometido unicamente em satisfazer o mercado, Temer não conseguiu conter o agravamento da crise política e econômica. A chance de retomada da normalidade era a eleição presidencial do ano passado. No entanto, a inabilitação do ex-presidente Lula, líder disparado das pesquisas, e o uso massivo de fake news via whatsapp, a fim de manipular a opinião pública, colocaram sob suspeita o resultado das urnas. Comprometeram a legitimidade.

O país continua perigosamente dividido. Uma divisão que cada vez mais abre espaço para os militares. Está evidente que hoje o poder moderador no Brasil vem dos quartéis. Sem dúvida, o mercado e o Judiciário têm expressiva participação, mas a caserna tem a decisão final. O Legislativo e a mídia são importantes, mas estão no plano de coadjuvantes. Comando único. De democracia mesmo, só sobrou o voto. E olhe lá.

* Rogaciano Medeiros é jornalista