Artigo

Militarismo que vem das urnas

Postado dia: 28/12/2018 - 00:00

Em 2016, no auge do bate panela pelo impeachment e dos protestos de setores das classes médias manietados pelas velhas oligarquias que nunca abandonaram a obra da escravidão e sempre submeteram o país e a nação aos interesses do grande capital internacional, surgiram faixas reivindicando “Intervenção Militar Democrática”. Muita gente ficou a se perguntar: como é isso?

Pois bem, a resposta se concretizou em 28 de outubro do ano passado, se materializou anteontem, com a posse do presidente Jair Bolsonaro (PSL) e tem tudo para ganhar corpo em um governo que já nasce se debatendo em conflitos, desentendimentos e desconfianças geradas por denúncias e acusações que espalham crises nos mais diversos setores.

Da economia à diplomacia, passando pela política, pelo social e até pelo religioso, o novo governo foi capaz de provocar atritos nos planos nacional e internacional antes mesmo de ser empossado. Um ambiente de confronto e instabilidade que ameaça a governança e a governabilidade. Da caserna, os militares, que têm oficiais de alta patente em sete cargos estratégicos do primeiro escalão, observam tudo, preparados para o que der e vier. E, ao que tudo indica, virá.

Há algum tempo os quartéis, berço do pensamento não apenas oligárquico, mas também aristocrático da débil sociedade brasileira, têm dado as cartas na esfera macro política e, principalmente, institucional. Têm definido a condução do Estado perante estratégicas questões nacionais. Não governam diretamente, mas definem rumos quando não há consenso entre as elites.

Durante o ilegítimo governo Temer, imobilizado no caos, inclusive institucional, os militares avançaram muito no espaço político. Ao contrário da espetacularização ocorrida no Judiciário, aos poucos, silenciosamente para a grande massa da população, a politização da caserna evoluiu e se fez hegemônica. A eleição do capitão Bolsonaro é o coroamento de um processo exitoso, bem ou mal legitimado pelas urnas.

Hoje, o poder civil tem sido uma concessão do poder militar, que controla o Executivo, o Legislativo, o Judiciário e a mídia. O recente episódio envolvendo o STF na questão da prisão em segunda instância é uma prova cabal. Como se diz popularmente, “tá tudo dominado”. Pelas mesmas elites clânicas, que empurram o Brasil de volta ao colonialismo. Democracia minimalista costuma parir aberrações.

* Rogaciano Medeiros é jornalista