Artigo

Só o povo salva a democracia

Postado dia: 22/10/2018 - 00:00

O Tribunal Superior Eleitoral mandou abrir investigação sobre o escândalo denunciado pela Folha de São Paulo, de que o tsunami de notícias falsas disparadas via whatsapp pela campanha de Bolsonaro para desqualificar e demonizar Haddad é financiado por empresas, em um esquema de caixa dois. Pela lei, crime eleitoral passivo de cassação da chapa do PSL.

No entanto, no mesmo dia em que mandou apurar os fake news do capitão, o ministro Jorge Mussi, do TSE, se recusou a quebrar os sigilos bancário, telefônico e telemático das empresas e empresários envolvidos. Também negou operações de busca e apreensão. Está muito claro. A ordem de apuração não passa de formalidade legal para dar uma satisfação à sociedade, às vésperas do segundo turno. Pura encenação.

A denúncia da Folha, que não surgiu por geração espontânea, parece um movimento de frações minoritárias das elites menos truculentas. Algumas, inclusive, apoiaram o golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016 - acreditavam que os tucanos assumiriam o poder -, e agora temem os desdobramentos econômicos, políticos e sociais de um provável governo Bolsonaro. Assustam-se com a perspectiva de um Estado policial. A Folha sempre foi porta voz do pensamento liberal no Brasil.

No entanto, pela atitude vergonhosa do TSE e a violenta reação do Estadão, jornal dos setores mais conservadores, que chegou ao ponto de classificar a Folha como “esquerdopata”, fica evidente que a grande maioria da classe dominante, que detém o mercado e o controle das instituições, está mesmo fechada com Bolsonaro.

Isso não significa que o presidenciável do PSL já ganhou a eleição, antecipadamente, como a mídia tenta fazer crer. A situação realmente é difícil, mas ainda há chance concreta de Haddad virar o jogo. A diferença no primeiro turno foi de 18 milhões de votos, mas houve quase 30 milhões de abstenções, sem falar que mais de 10 milhões votaram em branco e nulo. Quer dizer, há margem para o candidato das forças progressista evoluir.

O êxito do neofascismo nas urnas é resultado direto da guerra de notícias falsas via whatsapp. A opinião pública foi escandalosamente manipulada. Uma fraude que contamina toda a eleição. Mas, o TSE já demonstrou que, de novo, vai lavar as mãos. Pela via das instituições, as forças progressistas não têm a menor chance. E não poderia ser diferente. Afinal, o Judiciário foi decisivo na ruptura institucional de 2016, tem se mantido fiel ao golpismo neoliberal e não vai mudar agora, na eleição presidencial.

À Resistência Democrática resta apenas o duro caminho da mobilização popular, sempre complexo e difícil. Aliás, as últimas manifestações servem para renovar os ânimos. A de sábado, em Salvador, por exemplo, foi excelente. É a luta de sempre: o povo vai às ruas, em busca de democracia e justiça social, enquanto as elites recorrem ao autoritarismo e à violência para manter os privilégios.

A possibilidade de o escândalo das fake news impugnar a candidatura de Bolsonaro é bem remota. O melhor é esquecer o TSE. Até porque, o neofascismo que hoje contamina toda sociedade e ameaça o Brasil tem raiz nas entranhas pantanosas de um Estado que usa a Justiça para violentar a soberania popular. Só o povo salva a democracia.

* Rogaciano Medeiros é jornalista