Artigo

O fascismo neoliberal

Postado dia: 02/10/2018 - 00:00

Semana passada, o filósofo Pablo Ortellado disse que Bolsonaro não era fascista por não agregar um conteúdo nacionalista. A cientista social Esther Solano o contestou e reafirmou o fascismo do capitão, com o argumento de que o presidenciável do PSL pensa e opera pela ótica fundamentalista do “inimigo interno”.

Realmente, o nacionalismo passa bem longe de Bolsonaro. Como deputado federal, ele tem se posicionado a favor de todas as medidas do governo Temer para entregar as riquezas nacionais ao grande capital estrangeiro. Sem exceção. São empresas estratégicas, essenciais para assegurar a soberania nacional. A postura entreguista nega o discurso ufanista de defesa do Brasil.

Bom, se Bolsonaro não é nacionalista, um dos pilares básicos do fascismo, então seria incorreto chamá-lo de fascista. Não é bem assim. Até porque, ele mantém outro conceito inerente, indispensável ao pensamento fascista, que é o “inimigo comum”. Quem não pensa igual é indesejável, execrável, carrega o vírus que contagia os “bons”, por isso tem de ser descartado, eliminado, jogado fora. Sem piedade.

Bolsonaro é o que se pode chamar hoje de neofascista. O capitalismo sob hegemonia do sistema financeiro, centrado no fim das fronteiras, na globalização, tem provocado mutações no fascismo, no socialismo e no próprio liberalismo. O mundo globalizado impõe à chamada democracia burguesa, ocidental, novos paradigmas nos planos da infra e da superestrutura. Ou seja, na economia, na política e no social.

No caso do fascismo, que ultimamente reapareceu de forma contundente em nível internacional e nacional, o componente nacionalista, embora se mantenha na retórica, na prática tem sido substituído pelo mercado, encubado em um manto puritano e religioso. O Estado tem de ser o mínimo possível para o povo, mas total na reprodução maximizada do capital, na manutenção da “ordem” e das “tradições”. 

Dias atrás, a filósofa Marilena Chauí chamou atenção para o caráter totalitário do neoliberalismo. No livro O Estado pós democrático – Neo-obscurantismo e gestão dos indesejáveis, o jurista Rubens Casara, que foi presidente da AJD (Associação Juízes para a Democracia), debate a essência extremamente autoritária, elitista, excludente, intolerante, violenta e antipopular que orienta o projeto neoliberal, o conceito de Estado mínimo. 

Além da repulsa à democracia, o fascismo e o neoliberalismo carregam no DNA a noção do “inimigo comum”, que precisa ser debelado a qualquer custo. Os movimentos sociais então, nem pensar! Encarnam o satanás. O que vem do povo está contaminado, representa risco para o “homem de bem”. É o retrato de Bolsonaro, um subproduto da crença do pensamento único para o mundo, com Estado forte para garantir o despotismo de mercado e reprimir o povo. É o neofascismo.

* Rogaciano Medeiros é jornalista