Artigo

A ruptura gera a besta

Postado dia: 08/09/2018 - 00:00

A crescente violência política que o país amarga estava escrita nas estrelas. A passionalidade, os insultos extremados, as ameaças e o tom agressivo na esfera reservada ao debate de idéias e projetos descambariam, inevitavelmente, para a campanha eleitoral. Atentados a tiros na caravana de Lula pelo Sul e no acampamento de Curitiba (PR), ameaças e agressões a candidatos em vias públicas, confrontos constantes entre simpatizantes desse e daquele presidenciável, agora o incidente de Juiz de Fora (MG) com Bolsonaro.  Onde vamos parar?

Os sinais sempre foram claros e a omissão das autoridades, especialmente a Polícia Federal, na apuração dos casos com rigor e punição exemplar dos responsáveis, ou melhor, irresponsáveis, ajuda a reforçar o sentimento de impunidade e a estimular a besta. Agora, resta saber se as elites reacionárias, que controlam o Judiciário, o Legislativo, o Executivo e a mídia, vão continuar com essa imbecilidade de incentivo ao ódio e a intolerância. Instrumentalizar a violência é igual a brincar com fogo.

O agravamento da crise política e econômica, todo esse caos que o Brasil vive hoje, começa pouco antes das eleições gerais de 2014, quando a direita, após três derrotas seguidas nas urnas, resolveu apostar na desestabilização do sistema como tática para reconquistar o poder. Diante de mais um fracasso eleitoral com a reeleição de Dilma, o processo se agudiza e atinge patamar mais elevado com o golpe jurídico-parlamentar-midiático de 2016, através de um impeachment sem crime de responsabilidade.

Naquele momento, a ruptura institucional, mais uma vez promovida pelas mesmas oligarquias de sempre - desde a época da Independência -, eternamente antidemocráticas e autoritárias, abriu espaço para os mais variados tipos de aventuras, abusos e excepcionalidades. A violência política não se resume aos tiros em Lula ou na facada em Bolsonaro.

O desprezo à democracia, as agressões à Constituição, o desrespeito às regras, a partidarização do Judiciário, o uso escancarado da Justiça e da mídia para favorecer grupos políticos e criminalizar adversários, a recusa em cumprir os tratados internacionais, o espírito escravagista das elites nativas e a violação à vontade popular estão na raiz de toda a violência política, que agora explode em tiros e facadas.

Na falência da racionalidade, o arbítrio sempre toma conta. Para combater essa velha doença nacional, o único remédio é o Estado democrático de direito. Em altas doses. Antes que o tumor se espalhe pelo corpo.

* Rogaciano Medeiros é jornalista