Artigo

A democracia na ponta da chuteira

Postado dia: 09/07/2018 - 00:00

Rogaciano Medeiros *

O triste episódio de domingo, dois dias após a eliminação da Seleção Brasileira, quando o juiz Sérgio Moro bateu pé firme e não permitiu a libertação do ex-presidente Lula, determinada pelo desembargador Rogério Favreto, do TRF-4, ativa à lembrança dois grandes nomes da literatura brasileira.

Como dizia Gilberto Freyre, quando o futebol fracassa, ganham destaque os problemas nacionais, no país em que Nelson Rodrigues retratava como “a pátria de chuteira”, nos contos da série “A vida como ela é”, que o tornou famoso. Com o sonho do hexa sepultado, agora é encarar a triste realidade da eleição de outubro próximo.

A recusa de Moro, que está de férias, em Portugal, em soltar Lula é mais um recado claro, concreto. O golpismo neoliberal, diante do alto risco de fracasso eleitoral, pela falta de um candidato competitivo, não tem a menor pretensão de seguir as regras, muito menos o mínimo receio de passar por cima da lei para tentar evitar a vitória, nas urnas, das forças progressistas, que pelas vias democráticas parece inevitável.

Juiz de primeira instância, a ousadia de Moro, de desrespeitar deliberação superior e não permitir a libertação de Lula, acontece poucos dias depois de ele criticar, dura e publicamente, decisões de ministros do Supremo Tribunal Federal, ao ponto até de tentar reformular o que a segunda turma do STF já havia decidido. Uma barbaridade sem precedente na história brasileira.

O Judiciário sempre foi elitista. Mas, nos últimos anos perdeu completamente o caráter moderador. Enveredou por um ativismo político e tornou-se um decisivo instrumento de conquista e manutenção do poder pelas mesmas oligarquias que sempre estiveram associadas ao grande capital internacional, jamais permitiram a efetivação de um projeto de nação soberana e independente, enfim que nunca tiveram vergonha de entregar o ouro ao bandido.

No próximo mês, o STF vota o recurso da defesa pela libertação de Lula e o TSE decide se o ex-presidente, líder absoluto e disparado em todas as pesquisas da corrida presidencial, condenado sem provas, tem o direito legal de ser candidato. As perspectivas não são animadoras. Há, inclusive, setores de extrema direita que querem a suspensão das eleições.

Infelizmente, hoje o exercício do poder, da governabilidade e da cidadania tornou-se uma concessão arbitrária do Judiciário. Descaminhos da Justiça ou caminhos da injustiça? O autoritarismo quer ganhar no tapetão, com gol de impedimento. A arbitragem está corrompida. Resta ao povo assumir o jogo para salvar a democracia e reacender o sonho de um Brasil brasileiro.

*  Rogaciano Medeiros é jornalista