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Quem derrubou o presidente da Petrobras?

Postado dia: 04/06/2018 - 00:00

Pedro Parente é um tucano histórico. É da turma dos “alquimistas”, profetas neoliberais que continuam professando uma fé já abandonada até mesmo pelo Banco Mundial.

Sua queda embute uma mensagem objetiva. O neoliberalismo tardio e anacrônico do PSDB não passa nas urnas. É uma política antinacional, antipovo, serviçal de interesses estranhos ao povo brasileiro. O “executivo competente” levou Temer ao isolamento. Sua queda era a consequência natural.

A política de preços da Petrobras desagradou setores importantes da economia. Transportadoras, caminhoneiros autônomos e o agronegócio se levantaram, para citar apenas os atores mais visíveis.

A irresponsabilidade de vincular o preço dos combustíveis à variação internacional do preço do barril e do câmbio desorganizou setores inteiros da economia. A esperada previsibilidade, regra do mercado, foi para o espaço. No meio da crise, o anúncio de mais um aumento da gasolina foi a gota d’água.

A esquerda festeja a derrubada. Não deixa de ser uma boa notícia, estamos carentes delas. A paralisação dos petroleiros foi um ingrediente a mais na crise. Olhando friamente o que ocorreu, há mais recados do que motivos para festas.

A greve não foi comandada pelas centrais sindicais ou pelos partidos de esquerda. É forçar a barra dizer que expressa uma virada na conjuntura.

O movimento começou como um locaute. Entre seus líderes, Emílio Dalçóquio, dono de 600 caminhões ligado a Bolsonaro. É fato que foi um movimento heterogêneo, os caminhoneiros têm características diversas, origens e realidades distintas. Apesar da infiltração de setores fascistas, seria um exagero também afirmar que a resultante empurra o país para extrema direita.

A reflexão principal está na análise dos setores econômicos e sociais que deram sustentação ao movimento, o que os motivou, que interesses forjaram a unidade?

Ficou claro que o neoliberalismo clássico representado por Alckmin não encontra eco na sociedade brasileira. O agronegócio, que já foi Lula, rechaçou a política do PSDB para Petrobras. Uma parte flerta com Bolsonaro. Vão todos com o fascista?

O poderoso setor de transporte de cargas teve a mesma posição. Vai com quem nas eleições?

O Datafolha foi categórico. O apoio ao movimento foi de 87%. Quando veio a conta do acordo proposto pelo governo, os mesmos 87% se posicionaram contra cortes no orçamento e contra o aumento de impostos.

Outro tapa na cara da agenda fiscalista tucana. A sabedoria popular foi clara. Só há uma saída para aumentar gastos sem aumentar impostos ou fazer cortes nas políticas públicas: o Brasil voltar a crescer.

Por que setores que rejeitam a agenda neoliberal perderam a referência na esquerda? Como apresentar um projeto nacional de desenvolvimento que seja capaz de atraí-los novamente?

Na incapacidade de um candidato de centro direita neoliberal representar estes interesses, eles podem migrar para o nacionalismo fascista do “Capitão”?

A queda de Parente expressa a falência da agenda Tucana, mas não necessariamente o triunfo da pauta progressista. Esse raciocínio mecânico é uma ilusão.

A Copa do Mundo está chegando. A esquerda voltar a disputar a bandeira nacional, se vestir de verde e amarelo, seria uma demonstração de que está compreendendo corretamente o que está em curso no país. Não precisa abandonar o vermelho. É só deixar claro que a bandeira nacional é nossa e não vamos abrir mão dela.

* Ricardo Cappelli é secretário da representação do governo do Maranhão em Brasília e foi presidente da União Nacional dos Estudantes